O porta-voz da chancelaria iraniana abriu a semana com uma daquelas pérolas retóricas que merecem ser emolduradas no museu do cinismo diplomático. Segundo ele, a oferta que Teerã mandou para Washington, em troca de encerrar a guerra e reabrir o Estreito de Ormuz, foi legítima e generosa. Generosa. A palavra escolhida para descrever um acordo em que uma das partes mantém a faca encostada na jugular do comércio mundial enquanto pede para o refém agradecer pela misericórdia de talvez afrouxar o aperto.
Convém lembrar ao distraído o que é Ormuz. Por aquele corredor estreito, espremido entre rochas e mísseis, passa algo em torno de um quinto do petróleo consumido no planeta inteiro, mais boa parte do gás natural liquefeito que aquece a Europa e move a indústria asiática. Fechar Ormuz é o equivalente geopolítico de um sujeito sentar em cima da única torneira de água de uma cidade e cobrar pedágio gole a gole. Não há generosidade nisso. Há sequestro. E o sequestrador que devolve metade do refém ainda vivo não está sendo generoso, está apenas calculando o preço do resgate.
A lógica do regime é transparente para quem se dá ao trabalho de olhar. Primeiro se fabrica a crise, depois se vende a solução da crise. Bloqueia-se a rota, dispara-se o barril, e quando o mundo está com a corda no pescoço aparece o porta-voz de terno bem cortado falando em proposta legítima. É o velho truque do incendiário que chega na cena do crime vestido de bombeiro e pede gorjeta. Funcionou no Líbano, funcionou na Síria, funcionou na Venezuela; pretendem que funcione mais uma vez no Golfo Pérsico porque a memória curta do Ocidente sempre cobre os custos da próxima rodada.
E quem cobre, exatamente, esses custos? Não é o aiatolá, que segue o expediente jantando faisão em Teerã. Não é o porta-voz, cujo salário sai do petróleo confiscado do próprio povo iraniano. Quem paga é o motorista de aplicativo em São Paulo que abastece mais caro na semana seguinte, é a dona de casa em Lisboa que vê o gás de cozinha subir, é o operário em Manaus cuja inflação importada come o salário antes do dia vinte. Toda vez que um regime brinca de fechar estreito, o mundo inteiro recebe a fatura disfarçada de bomba de combustível mais cara. O imposto inflacionário cobrado por ditadores estrangeiros é o mais perverso de todos, porque ninguém votou nele e ninguém pode protestar contra ele na próxima eleição.
O detalhe saboroso é a exigência simétrica do outro lado. Washington, segundo o próprio porta-voz, mantém condições colonialistas. Tradução do diplomatês para o português de gente: os americanos querem que o Irã pare de enriquecer urânio em grau de bomba e deixe de financiar milícias que atiram em civis de Tel Aviv a Riad. Se exigir que um regime teocrático abandone armas atômicas e proxies armados é colonialismo, então a palavra perdeu qualquer significado e virou simples xingamento de quem foi pego com a mão na cumbuca. As coisas, no entanto, são o que são, independentemente da etiqueta que se cole nelas. Um míssil é um míssil ainda que se chame de pesquisa pacífica. Uma chantagem é uma chantagem ainda que se anuncie como proposta generosa.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa quando o palco diplomático se acende e os porta-vozes começam a recitar suas falas decoradas. Quem paga essa conta e quem recebe esse dinheiro? Paga o consumidor anônimo de cinco continentes, recebem os mesmos de sempre, os burocratas armados que descobriram, séculos atrás, que a melhor forma de enriquecer sem trabalhar é controlar uma passagem estreita e cobrar tributo de quem precisa atravessar. Mudaram os turbantes, mudaram as bandeiras, mudou o vocabulário; a velha extorsão segue intacta, agora batizada de generosidade.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.