O Partido Socialista Brasileiro saiu da toca e divulgou nota oficial de apoio à indicação de Jorge Messias para a cadeira vaga no Supremo Tribunal Federal, gesto que veio carimbado logo depois do aceno do ex-presidente do Senado, conforme registrou o Poder360. Não houve nenhum debate sobre filosofia do direito, nenhuma discussão sobre hermenêutica constitucional, nenhuma reflexão sobre o papel contramajoritário de uma corte suprema. Houve nota. Houve aceno. Houve ajuste. O resto é decoração.

Quando uma legenda que abriga o vice-presidente da República resolve, num átimo, declarar adesão ao indicado do Planalto para a mais alta corte do país, o cidadão minimamente desperto não precisa de bola de cristal para entender o que está acontecendo. Cargo no Supremo virou moeda de troca, não cadeira de magistrado. Vale lembrar que repúblicas antigas já se desmancharam exatamente por isso: quando o tribunal supremo deixa de ser o último anteparo contra o arbítrio e passa a ser uma extensão decorativa do palácio, a forma da coisa pode continuar sendo república, mas a substância já é outra, bem mais antiga e bem menos honrosa.

Siga a trilha. O partido apoia o indicado. O indicado, uma vez confirmado, julgará causas que envolvem diretamente o governo que o indicou e os parlamentares que o aprovaram. Os mesmos parlamentares que recebem emendas, que negociam relatorias, que distribuem cargos em estatais, que liberam verbas em ano eleitoral. Fecha-se o circuito. O contribuinte, esse personagem mudo da peça, financia tudo: o salário do ministro, o palácio onde despacha, a estrutura da AGU de onde ele veio, o gabinete do senador que o sabatinou e o avião que levou o vice à cerimônia. Quem paga é sempre o mesmo. Quem recebe vai se revezando no proscênio para fingir que cada turno é uma novidade.

O detalhe deliciosamente revelador é a velocidade. Note bem o ritmo: aceno de ontem, nota de hoje. Ninguém se reúne, ninguém delibera, ninguém consulta as bases, ninguém finge sequer aquele teatrinho de convenção partidária. A coisa sai pronta, como bolo de microondas. Isso só acontece quando o conteúdo da decisão não importa, porque o que importa é a posição na fila do butim. Partido grande não discute mérito de indicação ao Supremo, partido grande discute o que ganha em troca. E ganha em ministério, em cargo de segundo escalão, em diretoria de banco público, em emenda carimbada para o reduto eleitoral do cacique de plantão.

Há quem ainda acredite, com aquela ingenuidade comovente dos manuais de educação moral e cívica, que o Supremo é o guardião da Constituição. A Constituição, coitada, anda virando acordeão nas mãos de quem chega lá pela porta dos fundos da política partidária. Quando o critério para vestir a toga é a docilidade ao governo que indica, o que se está fundando não é tribunal, é cartório do poder. E cartório, todo mundo sabe, não julga: registra. Registra a vontade do mais forte com letra bonita e selo de autenticidade.

O cidadão que estranha tudo isso costuma ser chamado de radical, de extremista, de inimigo da democracia. Curioso. Radical é quem aponta o óbvio, ou quem normaliza o escândalo a ponto de transformá-lo em paisagem? Quando a oligarquia política se reorganiza às claras para colonizar a corte que deveria contê-la, o silêncio é que é cumplicidade, não a denúncia. O rei está sem roupa, o partido socialista bate palmas para a indicação, e a conta, como sempre, vem para o trouxa que acorda às cinco da manhã para pegar o ônibus.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.