A notícia é daquelas que merecem ser lidas duas vezes, não pelo conteúdo, que é trivial, mas pela coreografia. O PSDB, aquela legenda que um dia se vendeu como a social democracia civilizada do Brasil, está sentado à mesa com o Missão, sigla recém parida pelo MBL, para negociar palanques em São Paulo e na corrida presidencial. Os mesmos rapazes que vestiam camisa amarela e gritavam contra o sistema agora discutem chapa proporcional com o que sobrou da turma do tucano. O figurino mudou, o teatro é o mesmo.

Convém lembrar do óbvio, que ninguém entra numa aliança partidária por amor à pátria. Aliança é sociedade comercial. O PSDB tem o que ao MBL falta, tempo de televisão, fundo partidário, estrutura regional e décadas de capilaridade burocrática. O Missão tem o que ao PSDB sumiu, juventude com cara de cliente novo, narrativa minimamente vendável e a pose de quem ainda não está oficialmente apodrecido aos olhos do eleitor. Casamento de conveniência, daqueles em que a noiva sabe que o noivo é falido e o noivo finge que a noiva é virgem. O resto é cerimônia.

Sigamos a trilha do dinheiro, porque o resto é fumaça. O fundo eleitoral previsto para o próximo ciclo deve superar os cinco bilhões de reais, dinheiro que o senhor que trabalha tirou do bolso, sem ter sido consultado, para sustentar legenda que ele nem votou. O PSDB, encolhido nas urnas, está irrigado pelo cofre público. O Missão, recém nascido, precisa de cota desse mesmo cofre para existir. A aliança, portanto, não é projeto de país, é engenharia de partilha. Quem paga é sempre o mesmo, o pagador de imposto, o sujeito anônimo que nunca foi convidado para a reunião onde se decide o destino do seu salário.

Há ainda o detalhe filosófico, que é onde a coisa fica saborosa. O MBL surgiu publicamente jurando guerra ao establishment, posando de jovem turco contra a velha política. Dez anos depois, a velha política o adota, lhe dá sobrenome e o apresenta na sociedade. Roma ensinou isso aos plebeus que viraram tribunos, depois cônsules, depois patrícios, e por fim defensores ferozes do mesmo Senado que prometeram incendiar. A revolta, quando bem domesticada, vira cargo. O grito, com tempo suficiente, sempre acaba assinando portaria.

O eleitor de bom senso, aquele cada vez mais raro, precisa observar a cena com a frieza de quem assiste a um leilão. Não há aqui novidade ideológica, há apenas reposicionamento de balcão. Os mesmos discursos contra o sistema serão proferidos pelos novos proprietários do sistema. Os mesmos jargões sobre liberdade econômica serão usados para justificar emenda parlamentar, cargo em estatal, indicação em agência reguladora. A diferença entre o reformista de ontem e o fisiológico de amanhã é apenas o tempo de mandato necessário para a metamorfose se completar.

Resta a pergunta de sempre, que é a única que importa quando se examina qualquer arranjo político neste país. Quem paga, quem recebe? Paga o brasileiro comum, que continuará financiando o teatro com seu trabalho confiscado mês a mês. Recebem os contratantes do espetáculo, velhos e novos, que descobriram que dividir o butim é mais lucrativo do que disputá lo. O resto, programa de governo, manifesto, carta de princípios, é literatura de embrulho. O presente lá dentro é sempre o mesmo, e nunca foi para o senhor.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.