O Psol, partido que vive a recitar o catecismo da pureza revolucionária, decidiu que a ex-ministra do Meio Ambiente merece um upgrade. Não a vice na chapa de Haddad, função subalterna demais para alguém do calibre dela, mas uma cadeira no Senado por São Paulo. Traduzindo do dialeto partidário para o português dos mortais: a federação com o Rede, costurada nos bastidores como quem costura terno sob medida, exige contrapartida, e a contrapartida é um mandato de oito anos com salário, gabinete, assessores, passagens aéreas, cota parlamentar e a imunidade que transforma senador em semideus de toga vitalícia. Quem paga, claro, é o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus.
Repare na coreografia. O presidente nacional do partido vem a público anunciar que recusa a vice porque a vice é pouco. Pouco para quem? Para o projeto, dizem eles, com aquela voz solene de quem fala em nome da humanidade inteira. Mas o projeto, quando a gente raspa o verniz, é sempre o mesmo projeto de toda agremiação política desde que o mundo é mundo: ocupar cargo, distribuir cargo, sustentar a estrutura que vive de cargo. A diferença entre a esquerda festiva e o centrão de paletó amarrotado é apenas estética. Um usa lenço palestino, o outro usa relógio dourado. A planilha orçamentária no fim do mês é idêntica.
E há uma ironia deliciosa na escolha da candidata. A ex-ministra construiu sua biografia inteira sobre a recusa do óbvio, sobre a conversão sucessiva, sobre a saída teatral de cada partido em que se filiou. Saiu do PT, saiu do PV, fundou a Rede, voltou para o governo, e agora será embarcada como bagageiro de luxo na federação do Psol porque alguém precisa dar densidade eleitoral à chapa. A militância, que ontem a chamava de traidora, hoje a recebe com banda de música. Por quê? Porque cargo elege cargo, e porque candidatura competitiva em São Paulo é mercadoria escassa. A coerência, na política brasileira, tem prazo de validade igual ao do iogurte.
Façamos o silogismo elementar que ninguém na imprensa palaciana ousa fazer. Toda federação partidária existe para maximizar tempo de televisão, fundo eleitoral e cadeiras no parlamento. O fundo eleitoral, lembre o leitor distraído, é dinheiro retirado à força do bolso de quem trabalha, transferido via tributo para os cofres do Tesouro, e devolvido aos partidos sob a forma de bilhões para que comprem santinho, contratem cabo eleitoral e financiem jingle. Logo, toda federação é, em essência, um arranjo de sócios para acessar dinheiro alheio. Não há nobreza na operação. Há contabilidade. E a contabilidade, quando bem lida, dispensa qualquer comentário moral.
O detalhe mais saboroso é a recusa da vice. Recusar a vice de Haddad é recusar o lugar de coadjuvante numa peça em que o protagonista talvez nem consiga subir ao palco, dada a turbulência paulista. O cálculo é frio como mármore de necrotério: vice perde com o titular, senador eleito ganha sozinho. A militância pode acreditar que se trata de princípios, de projeto, de horizonte civilizatório. O operador partidário sabe que se trata de probabilidade estatística aplicada à folha de pagamento. Há quem chame isso de estratégia. Outros, menos cerimoniosos, chamam de aquilo que sempre foi.
No fim das contas, a notícia é menos sobre a ex-ministra e mais sobre o método. O método de transformar legenda em agência de colocação, eleição em concurso interno, eleitor em massa de manobra de planilha. O contribuinte paulista vai à urna acreditar que decide o destino do país, e na verdade está homologando um acordo fechado em sala fechada, com café requentado e canetas Bic, entre meia dúzia de dirigentes que jamais pegaram fila no SUS. O rei segue nu, a banda segue tocando, e a conta segue chegando para quem nunca foi convidado para o baile.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.