Há cenas que dispensam comentário porque já se comentam sozinhas. A federação que reúne os três partidos mais barulhentos do espectro governista, aqueles mesmos que enchem a boca para falar de democracia, liberdade de expressão e resistência cultural, decidiu acionar a Justiça Eleitoral contra uma personagem de inteligência artificial. Não contra um veículo de imprensa, não contra um deputado, não contra um cabo eleitoral de carne e osso. Contra uma senhora de meia-idade que existe apenas como sequência de pixels e que tem o atrevimento de criticar o governo no idioma simples das donas de casa que pagam o gás a setenta reais o botijão.
Repare na grandeza da operação. O partido que se autoproclama herdeiro das lutas populares, que se vende como voz dos oprimidos, que enche praça com bandeira vermelha cantando contra a censura militar, agora corre ao juiz para tirar do ar um desenho animado. A coragem é tanta que precisaram de uma federação inteira, três siglas reunidas, advogados, peticionário, número de processo, tudo para silenciar uma velhinha imaginária. É o equivalente político de chamar o exército para matar mosquito. Só que o mosquito, neste caso, está zumbindo perto do tímpano certo.
Pergunta básica, daquelas que os meninos de toga preferem ignorar: quem paga e quem recebe nessa farra? Paga o contribuinte, que sustenta o aparato eleitoral, os juízes, os cartórios, a estrutura toda que será mobilizada para julgar se uma personagem virtual fere a honra de um governo. Recebe quem? Recebe o partido que precisa do silêncio para sobreviver, recebe a indústria do marketing oficial bancada com dinheiro público, recebem os portais subvencionados que vivem de verba estatal disfarçada de publicidade institucional. A conta da censura sempre cai no bolso de quem é censurado. Sempre foi assim, desde que governo é governo.
O detalhe delicioso, aquele que escapa aos jornalistas treinados para olhar para o lado, é que a personagem incomoda exatamente porque acerta. Ninguém aciona a Justiça contra crítica que não cola. Quando o golpe não machuca, o sujeito ri, posta um meme, segue a vida. Quando o golpe abre carne, o sujeito chama o oficial de justiça. A reação revela a ferida. Toda vez que algum poder solene processa uma piada, ele está confessando, em letras maiúsculas, que a piada é verdadeira. Não há monumento mais eloquente da fraqueza do que o líder que precisa do juiz para impor o respeito que não consegue arrancar do público.
Há também uma ironia histórica que merece ser saboreada com calma. Os tribunais eclesiásticos da Idade Média queimavam livros heréticos, os comissários soviéticos retocavam fotografias para apagar dissidentes, os censores das ditaduras sul-americanas recortavam jornal com tesoura. Cada época tem o seu instrumento, e todas têm a mesma alma. A nossa novidade é mais patética porque mira o intangível. Não há livro, não há foto, não há jornal. Há um arquivo digital animando uma figura que nem sequer existe fisicamente. E mesmo assim a máquina pública se mobiliza, porque o problema nunca foi o suporte material da crítica. O problema é a crítica. O problema é a frase verdadeira dita na hora errada para o ouvido errado.
O que se vê, no fim, é a confissão involuntária de um regime que perdeu a guerra cultural antes mesmo de perceber que ela existia. Quando o adversário é uma vovó de inteligência artificial e a resposta é uma ação judicial, o jogo já está decidido. Resta saber se o juiz terá pudor suficiente para mandar a peça para o arquivo, ou se vai entrar para a galeria dos magistrados que entenderam o cargo como cabide de militância. A aposta, infelizmente, não é generosa. Mas a vovó digital, essa, vai continuar falando. Apagam um perfil, nascem dez. É a única coisa boa de viver na era em que o censor ainda usa carimbo enquanto o censurado já usa servidor em outro continente.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.