A cena é digna de comédia de costumes. O partido que passou quase duas décadas no comando da máquina federal, que viu petroleiras virarem propriedade particular de amigos e bancos públicos financiarem ditaduras vizinhas com dinheiro do pagador de imposto, subiu ao palco do X para denunciar, com dedo em riste e olhar de promotor, a mansão de seis milhões que um senador comprou em 2021. O vídeo é um prodígio do gênero: associa o parlamentar a um banqueiro recém abatido pela Polícia Federal e tenta emplacar, na cabeça do eleitor distraído, a equação simples de que toda mansão é produto de bandidagem. A equação, aliás, é simples mesmo. O problema é que vale para os dois lados do balcão, e é justamente aí que o espetáculo desanda.
Porque, se o critério de suspeição é patrimônio incompatível com origem declarada, o acervo de imóveis, sítios, tríplexes reformados por empreiteira e apartamentos funcionais que passaram pela órbita do partido acusador daria um cadastro imobiliário próprio, com corretor exclusivo e feirão mensal. A plateia lembra. A plateia não esqueceu do andar inteiro que virou manchete, da reforma bancada por quem tinha obra para ganhar, dos terrenos que apareceram do nada na biografia de gente que, oficialmente, só tinha o salário de funcionário público. A diferença entre o acusador e o acusado, no fim das contas, não é de natureza, é de cronograma. Um já foi pego, o outro ainda está sendo investigado. Ambos vivem da mesma fonte, e essa fonte tem nome e CNPJ: é o cidadão pagador de tributo, ordenhado em três turnos.
Siga o dinheiro e a paisagem se esclarece. Um banco estadual, com a palavra pública no nome e no estatuto, é por definição uma máquina de transferir risco do operador privado para o contribuinte. Quando dá certo, alguém fica rico. Quando dá errado, todo mundo paga. É o velho truque do cassino onde o jogador aposta com a ficha alheia e sai pela porta dos fundos quando a banca estoura. O banqueiro abatido não é exceção do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar. E quando um senador da oposição aparece associado ao mesmo balcão, o partido governante não denuncia o balcão, denuncia o freguês inconveniente. O balcão, esse, segue aberto, com os freguêses certos entrando pela porta da frente, sem câmera, sem vídeo no X, sem sermão moralista.
Há uma lógica antiga, simples, que os bispos da retórica revolucionária detestam enfrentar. Se o poder sobre o dinheiro alheio produz corrupção com regularidade de relógio suíço, o problema não é o sujeito de plantão, é o poder em si. Trocar o ladrão não resolve o assalto, apenas reparte os despojos com outra turma. Os romanos descobriram isso quando os tribunos da plebe, criados para defender o povo contra a nobreza, viraram eles mesmos nobres em duas gerações. Os jacobinos descobriram quando, em nome da virtude, encheram o carrinho com a prata dos inimigos. E nós redescobrimos, com sotaque tropical, toda vez que um partido que prometeu acabar com a elite se instala nas elites com mais fome do que os antecessores.
O humor amargo da cena é esse: a denúncia do vídeo não é falsa por acaso, é falsa por desenho. Ela precisa ser parcial, porque uma investigação honesta sobre enriquecimento súbito de agente político no Brasil abateria, numa tarde de quarta feira, meia Brasília, com sobras para o Congresso Nacional, os tribunais superiores e boa parte dos assessores parlamentares que, por milagre bíblico, chegam aos cinquenta anos com três imóveis quitados e filhos em universidade americana. O partido aponta para a mansão do vizinho e espera que ninguém repare no mapa de seu próprio condomínio. É o truque do mágico, que movimenta a mão direita para você não olhar para a esquerda. Só que o público já viu esse truque mil vezes, e o aplauso, agora, é educado, constrangido, de quem percebe que o ilusionista está velho e sem cartas novas.
No fim, a pergunta que importa continua sendo a mesma de sempre, e ela não cabe em vídeo de trinta segundos. Quem paga pela mansão do senador? Quem paga pelo apartamento do ministro? Quem paga pelo banco estadual que quebra e é socorrido? Quem paga pela campanha do acusador e pela campanha do acusado? A resposta é chata e impronunciável em horário nobre: paga o sujeito que acorda às cinco da manhã, pega condução, trabalha o dia inteiro e vê, no contracheque, a mordida do leão, do município, do estado, da contribuição obrigatória e da inflação que corrói o que sobrou. Esse sujeito não tem mansão, não tem partido, não tem vídeo no X defendendo sua honra. Tem só o boleto, que chega pontualmente, enquanto os dois lados do palco discutem qual deles tem mais direito de meter a mão no bolso dele.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.