A cena se repete com a pontualidade de relógio suíço, só que com a eficiência de relógio de parede da repartição. Sempre que o mundo descobre uma commodity valiosa, o Planalto descobre uma estatal para criar. Agora a vez é das terras raras, aqueles minerais que fazem funcionar ímãs de motor elétrico, baterias, satélites e sistemas de armas, e a resposta criativa do partido é batizada de Terrabras. O nome já denuncia o método, porque toda vez que colocam o sufixo bras no final de alguma coisa, o que vem depois é contrato bilionário sem licitação decente, conselho recheado de afilhados e prejuízo socializado no colo do contribuinte.
Convém perguntar a coisa óbvia que ninguém no Congresso quer responder em voz alta: quem paga essa brincadeira e quem embolsa o cheque no final do mês. Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar condução, porque o dinheiro de capitalização de estatal não cai do céu, sai do imposto, da emissão monetária ou da dívida pública, que nada mais é do que imposto adiado com juros. Recebe, como sempre, o ecossistema habitual, diretoria indicada por acordo de bancada, fornecedor amigo do rei, consultoria contratada a peso de ouro para escrever relatório que ninguém lê e sindicato aparelhado para garantir a obediência da base.
Alegam soberania nacional, porque essa é a palavra mágica que desliga o cérebro do eleitor médio e faz com que qualquer absurdo passe pela garganta sem mastigar. Mas soberania nacional sobre o quê, exatamente? Sobre o subsolo que já é da União por determinação constitucional? Sobre a exploração que qualquer empresa privada faria sob regime de concessão pagando royalties polpudos ao Tesouro? O país não precisa virar sócio operacional do negócio para capturar renda mineral, basta cobrar imposto direito e fiscalizar com seriedade, coisa que, convenhamos, o Estado brasileiro terceiriza para si mesmo com resultados pitorescos.
A história das estatais extrativistas no Brasil é um filme que todo mundo já viu e cujo final ninguém esquece. Criou-se uma petroleira para garantir o combustível do futuro e ela virou caixa eletrônico de campanha, com delação premiada suficiente para encher biblioteca. Criou-se uma mineradora que foi privatizada, depois relativizada, e virou estudo de caso sobre captura regulatória. Agora querem repetir a receita com terras raras, como se o problema das estatais anteriores tivesse sido o produto vendido e não o arranjo político que as parasita. Premissa falsa produz conclusão burra, e o Congresso está discutindo modelos como quem escolhe a cor do carro novo sem perceber que o motor é o mesmo motor quebrado de sempre.
A pergunta honesta, aquela que não cabe no discurso de posse, é simples. Se terras raras são tão estratégicas e tão lucrativas, por que o governo precisa empunhar a picareta em vez de apenas cobrar pedágio de quem empunha? A resposta também é simples, e é por isso que ninguém fala alto. Empunhar a picareta dá emprego para o cunhado, dá diretoria para o deputado derrotado, dá contrato para o empreiteiro grato e dá propaganda para o ministro em ano eleitoral. Cobrar pedágio, sozinho, não alimenta clientela. E clientela, no Brasil, é o verdadeiro mineral estratégico, extraído das urnas e refinado nas comissões mistas.
Então, no fim do parágrafo como no fim do caixa, a conta volta para a mesma mesa. Quem paga é o brasileiro que nunca ouviu falar em neodímio, disprósio ou ítrio, e que vai bancar com seu salário a nova aventura industrial de gente que confunde planejamento econômico com planejamento eleitoral. Quem recebe é o mesmo cartel de sempre, aquele que troca de sigla mas não troca de apetite. Terrabras, no papel, promete soberania. Na prática, entrega mais uma porta giratória entre o Estado e seus protegidos, e cobra ingresso de quem nunca foi convidado para a festa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.