Marque a data na parede, porque ela é reveladora. Na próxima sexta, dia 24, o partido do presidente sobe ao palco do seu 8º Congresso Nacional para cravar, em papel timbrado, as diretrizes do plano de governo da reeleição. E o que está no cardápio? Reforma do Supremo Tribunal Federal e revisão do papel das Forças Armadas. Ou seja, antes de mostrar ao eleitor qualquer proposta sobre o preço do arroz, da gasolina ou da conta de luz, a militância já entrega o verdadeiro projeto: mexer nas duas únicas instituições que, em tese, ainda poderiam segurar a mão de um poder político sem freio. O resto é paisagem.
Observe o método, porque ele é sempre o mesmo. Quando um governo está satisfeito com as instituições, ele não propõe reformá-las; ele apenas as usa. Quando começa a falar em mudar regras, composição, mandatos, prerrogativas e missões constitucionais, é porque descobriu que essas mesmas instituições, em algum momento, podem dizer não. E um poder que não suporta ouvir não, por definição, não é um poder republicano; é outra coisa, com outro nome, que a história já catalogou em manuais grossos e desagradáveis de ler. Basta olhar para qualquer regime que, entre o Rio Grande e o Caribe, começou domesticando a Suprema Corte e terminou fantasiando general de porteiro de palácio.
Siga o dinheiro, que é o manual de instruções de qualquer arranjo político. Reformar o Supremo significa, na prática, abrir novas vagas, ampliar mandatos, criar filtros, mexer em competências. Tradução: distribuir cargos vitalícios bilionários a quadros leais, diluir votos contrários, carimbar decisões futuras antes mesmo de serem tomadas. É o equivalente jurídico de imprimir dinheiro; você não cria justiça nova, você apenas desvaloriza a que existe, transferindo poder do cidadão comum para o loteador do balcão. Quem paga a conta? O sujeito que vai precisar da Corte daqui a dez anos e vai encontrar lá os amigos de quem o processa. Quem recebe? O amigo de quem processa.
O capítulo das Forças Armadas é ainda mais ousado, e por isso mais pedagógico. Fala-se em redefinir missão, reduzir autonomia, reenquadrar a caserna nos desígnios do poder civil como se alguém, no Brasil de 2026, estivesse seriamente ameaçado por generais. A ameaça real, convenhamos, não vem de um coronel aposentado escrevendo no X; vem do impulso permanente de transformar a Constituição num bilhete que se rasga quando incomoda. Quando se quer domar a espada, não é porque a espada atacou; é porque se planeja algo que só passa com a espada bem amarrada. Isso não é teoria da conspiração, é leitura de bula.
E repare na solenidade com que tudo é embrulhado. Congresso partidário, diretrizes programáticas, comissões, relatorias, resoluções, um vocabulário eclesiástico para dar ar de liturgia ao que é, no osso, um ajuste de contas. A propaganda oficial sempre veste de interesse público aquilo que é, no fundo, interesse privadíssimo de um grupo específico que precisa da máquina para sobreviver. Chame as coisas pelo nome: o partido não está propondo aperfeiçoar a República, está propondo consertar os únicos instrumentos que, teoricamente, poderiam contê-lo. Tudo o mais é penugem para embalar o embrulho.
A pergunta, então, volta inteira, e o eleitor que ainda não dormiu deveria repeti-la em voz alta na cozinha, no escritório, no táxi. Se as instituições funcionam, por que mexer? Se não funcionam, por que quem as governou por tantos mandatos quer agora reformá-las, em vez de apenas cumpri-las? Quem paga essa reforma, no fim, com liberdade, com previsibilidade, com segurança jurídica e, claro, com imposto? E quem recebe, em cargos, sentenças e silêncios convenientes? Responda isso com honestidade, e o programa partidário se traduz sozinho, sem precisar de congresso nenhum.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.