O 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores vai deliberar, com a solenidade de quem assina tratado de paz, que a taxa básica de juros no Brasil deve cair para um dígito. Deliberar. Como se taxa de juros fosse pauta de plenária, decisão de assembleia, voto de militante com crachá. Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo sinistro, em ver um agrupamento político tratar o preço do dinheiro como se fosse cartaz de passeata. O juro não cai porque alguém quer; o juro cai quando o governo para de torrar o dinheiro alheio. E esse, convenhamos, não é exatamente o programa da casa.
Sigamos a trilha, que é curta e suja. O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada, emite dívida para cobrir o rombo, e então aparece de cenho franzido perguntando por que os juros estão altos. É o incendiário reclamando da fumaça. Quem paga essa conta? O sujeito que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, e vê a inflação comer o salário antes mesmo de o contracheque chegar. Quem recebe? O conglomerado de empreiteiras subsidiadas, o banco estatal que financia campanha travestida de política industrial, o amigo do rei que descobre, por acaso, ter vocação para minerais críticos assim que surge um programa nacional para minerais críticos. Coincidências, sempre coincidências.
A proposta para o Judiciário merece capítulo à parte, porque aqui a máscara cai com um barulho que se ouve de longe. Partido que passou vinte anos dizendo que a toga era sagrada, quando a toga absolvia, descobre de repente que a toga precisa de reformas estruturais, agora que a toga pronuncia inconveniências. Traduzindo do idioma original, que é o dialeto do poder, reforma do Judiciário significa Judiciário que decida do jeito certo. E o jeito certo, naturalmente, é aquele que não incomoda quem propôs a reforma. Até aí, nada de novo debaixo do sol; o novo seria admitir isso em voz alta, mas admitir em voz alta é exatamente o que nunca se faz.
Quanto às Forças Armadas, o raciocínio é mais simples ainda, e cabe num silogismo de botequim. Instituição armada que não obedece ao governo é ameaça; instituição armada que obedece cegamente ao governo é guarda pretoriana; logo, o que se pretende chamar de reforma é a conversão da segunda categoria na primeira, com verniz republicano e música de fundo cívica. Quem conhece a história sabe onde essa estrada termina, e não termina em democracia consolidada. Termina em comitê central fiscalizando caserna, o que, em matéria de tragédia latino-americana, já rendeu obra completa.
O pacote se completa com o fim das bets e o fim das emendas impositivas, dois anúncios que parecem virtuosos até o primeiro minuto de exame. Acabar com as bets é retórica populista de quem descobriu um inimigo fácil, enquanto os verdadeiros cassinos, os bancos públicos que quebram três vezes por década com dinheiro seu, continuam intocados. E acabar com emenda impositiva vindo de quem fez da rapadura orçamentária método de governo é confissão disfarçada de reforma: tira-se o brinquedo das mãos do parlamentar para devolvê-lo ao Executivo, que é justamente quem o inventou. Não há ganho de moralidade, há apenas mudança de endereço do confisco. O rei troca de capa, a capa continua vermelha, e o súdito continua pagando a lavanderia.
Então a pergunta inicial volta, teimosa como cobrador de aluguel. Quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte, paga o poupador, paga o empresário que contrata, paga o aposentado que vê o litro do leite subir. Recebe o partido, recebem os amigos do partido, recebem os institutos, as fundações, os contratos de ocasião, os cargos comissionados que brotam como cogumelo depois da chuva. Chamam isso de programa de governo; o nome honesto seria outro, mas o nome honesto há muito tempo saiu de circulação por aqui.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.