A notícia chegou com a solenidade de quem descobre água molhada: o PT admitiu que cometeu um erro de comunicação. Não um erro de gestão. Não um erro de diagnóstico econômico. Não um erro de concepção política. Um erro de comunicação, que na tradução honesta significa: as pessoas não acreditaram no que dissemos, e precisamos encontrar uma forma melhor de fazer com que acreditem. É a confissão mais reveladora que um partido pode fazer, porque ela pressupõe que o problema está no interlocutor, não na mensagem, e que a solução é técnica, não substantiva. Não se trata de mudar o que se faz. Trata-se de mudar como se vende o que se faz.

Há um nome clássico para essa prática, que qualquer vendedor de feira conhece melhor do que qualquer marqueteiro de Brasília: é a arte de embrulhar produto de segunda em papel de primeira. O país herdou, em janeiro de 2023, uma situação fiscal deteriorada, um câmbio pressionado e uma inflação que havia corroído o poder de compra das classes mais baixas, exatamente aquelas que o PT proclama defender com fervor de cruzada. Três anos depois, o argumento da herança maldita ainda respira no pulmão artificial da narrativa oficial, porque sem ele o partido teria que responder por aquilo que construiu, ou não construiu, com os instrumentos que recolheu e com o tempo que teve. A herança, nesse contexto, não é um dado histórico. É um mecanismo de imunidade. É o escudo que impede o presente de ser julgado pelo presente.

E então aparece Flávio Bolsonaro. O partido decidiu que o senador, com seu histórico de polêmicas e investigações que arrastam anos nos corredores da justiça, representa o melhor vetor de contraste disponível no mercado político. É uma escolha racional, no sentido mais frio do termo: se você não consegue fazer a população celebrar o que você construiu, faça-a temer o que o adversário representa. É a política do medo com verniz progressista, o mesmo recurso que impérios em decadência sempre utilizaram quando perceberam que o pão estava curto demais para sustentar o circo. Roma não inventou esse truque. Apenas o aperfeiçoou. E o PT, partido de décadas de experiência institucional, sabe muito bem que eleição se ganha no contraste, não no mérito, quando o mérito está comprometido.

O que torna esse reposicionamento especialmente significativo é a sua honestidade involuntária. Ao admitir que o problema foi a comunicação, o partido está, sem perceber, entregando a confissão de que a substância permanece intacta. A agenda econômica que não convenceu em 2023, 2024 e 2025 é a mesma que será reembalada para 2026 com novo papel celofane e nova fita. O gasto público que não se contraiu, a carga tributária que não aliviou, o aparato estatal que não encolheu nem uma vírgula: tudo isso seguirá exatamente igual, porque o partido não diagnosticou esses elementos como problemas. Diagnosticou apenas que faltou convencer. E convencer, para essa tradição política, é uma questão de dosagem retórica, não de realidade material.

Flávio Bolsonaro, é verdade, carrega um passado que não é imaculado. Mas transformá-lo no eixo central de uma estratégia eleitoral é, antes de qualquer coisa, um reconhecimento de derrota programática. Quando um partido que governou o país por catorze dos últimos vinte e três anos precisa ancorar sua proposta de futuro nas falhas do filho de um ex-presidente, alguma coisa fundamental foi perdida, e essa coisa não tem nome de comunicação. Tem nome de projeto. Tem nome de credibilidade. Tem nome de resultado concreto na vida de quem acorda cedo, trabalha o dia inteiro e chega em casa ainda com menos do que merecia ter. Para essa pessoa, a disputa entre narrativas de Brasília é um luxo que ela não tem condições de acompanhar com paciência. Ela olha para o preço do feijão e tira sua própria conclusão, sem precisar de marqueteiro algum para intermediar a realidade.

O erro não foi de comunicação. O erro foi de premissa. E enquanto o partido não entender essa diferença, continuará convocando reuniões para afinar o megafone enquanto o incêndio segue do outro lado da parede.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.