O futebol brasileiro adora uma estatística redonda, e a mais venerada delas é a campanha histórica na era dos pontos corridos com vinte clubes, aquele feito épico em que uma equipe passa meses intocável, soma vitórias como quem colhe laranja no quintal e termina com uma pontuação que os narradores repetem até decorarem. A liturgia é sempre a mesma: troféu erguido, fogos, camisa comemorativa vendida a duzentos e noventa reais, entrevista emocionada do capitão, coluna saudosista no dia seguinte. E então, silêncio. Passam dois, três anos, o mesmo clube que escreveu a lenda está vendendo zagueiro para turco de terceira divisão, atrasando salário do roupeiro e pedindo socorro à prefeitura. Alguém achou estranho?
Estranho seria não achar. Porque a campanha recordista, essa que enche páginas de análise técnica sobre esquema tático e aproveitamento como mandante, é um fenômeno contábil antes de ser esportivo. Quem fez mais pontos na história do torneio com vinte participantes não venceu por geração espontânea: venceu porque, naquela janela específica, empilhou uma folha salarial que os concorrentes não conseguiam pagar, turbinada por antecipação de cotas de televisão, empréstimo bancário com garantia de direitos federativos e, quando o caixa apertava, aquele velho conhecido chamado patrocínio estatal, às vezes travestido de empresa mista, às vezes escancarado na camisa como banco público. O tal domínio esportivo é a ponta visível de uma pirâmide de crédito que, quando desaba, quem paga é o contribuinte que nunca pisou no estádio.
Vale a pena seguir o dinheiro devagarinho, porque o rastro é instrutivo. A cota de televisão, que os clubes tratam como direito natural, nasceu de um arranjo oligopolista em que uma emissora compra tudo e redistribui conforme critério político, favorecendo os grandes e asfixiando os pequenos, de modo que a competição já começa torta antes da primeira bola rolar. Em cima dessa cota, o clube campeão alavanca dívida, porque banqueiro adora receita contratada, e com dívida compra jogador, e com jogador caro faz campanha histórica, e com campanha histórica vende sócio-torcedor, e com sócio-torcedor paga a parcela do ano que vem. É uma roda-gigante movida a promessa, e o passageiro que fica enjoado é sempre o mesmo: o pagador de imposto, porque quando o banco estatal perdoa, quando a Receita parcela em noventa anos, quando a prefeitura isenta IPTU do estádio, quem cobre o rombo é a dona de casa que nunca ouviu falar do meia-atacante de vinte milhões de euros.
A mitologia dos pontos corridos vende a ideia de que o formato premia o mérito, o trabalho constante, a regularidade ao longo de trinta e oito rodadas, como se estivéssemos diante de uma meritocracia pura destilada em gramado. É a mesma retórica que o Estado usa para justificar concurso público, cota de gênero no parlamento e tabela progressiva de imposto de renda: parece neutro, parece técnico, parece justo, e no fundo é só o arranjo que os beneficiários do arranjo acharam mais difícil de contestar. Premissa maior: o formato distribui recursos proporcionalmente ao desempenho. Premissa menor: o desempenho depende da folha salarial, e a folha salarial depende de acesso privilegiado a crédito subsidiado e cota de TV concentrada. Conclusão inevitável: o formato premia quem tem acesso ao arranjo, não quem joga melhor. O silogismo é cruel porque é verdadeiro.
E há o detalhe delicioso que quase ninguém percebe. O recorde de pontuação quase sempre pertence a clubes que, no mesmo período, protagonizaram algum escândalo de gestão, passivo trabalhista explosivo, sentença da Justiça do Trabalho engavetada ou acordo de repactuação com a União que estenderia a dívida até a idade aposentada dos bisnetos dos atuais conselheiros. O troféu reluz na vitrine, a certidão negativa vive empenhada no cartório. Isso não é desleixo administrativo, é modelo de negócio: maximize a glória enquanto o crédito rola, socialize o prejuízo quando a música parar. O torcedor, coitado, beija o escudo, chora com o hino e não sabe que o salário do ídolo saiu do imposto que ele pagou no combustível voltando do estádio.
Então, qual time fez mais pontos na história do Brasileirão com vinte clubes? A resposta técnica está nas tabelas, e os cronistas que se deleitem com ela. A resposta honesta é outra, e desconfortável: fez mais pontos o clube que, naquela temporada, conseguiu o maior arranjo de financiamento barato, a melhor fatia da cota concentrada, o perdão fiscal mais generoso e a torcida mais disposta a confundir identidade cultural com cheque em branco administrativo. A campanha histórica é o recibo de uma transação em que o pagador nunca foi consultado. Quem recebeu, já gastou. Quem pagou, ainda paga. O resto é folclore, e folclore, todo mundo sabe, é aquilo que se conta para as crianças dormirem enquanto os adultos acertam a conta lá fora.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.