A cena tem a brutalidade silenciosa das coisas naturais. Uma ave de quase dois metros de envergadura paira sobre a cordilheira, lê correntes térmicas que nenhum olho humano percebe, identifica o movimento de uma lebre a quilômetros de distância e calcula, com precisão de relojoeiro suíço, o ângulo exato em que o mergulho transforma gravidade em arma. Lá embaixo, a presa pasta tranquila, convicta de que o capim alto é cobertura suficiente. O bicho não sabe que já está dentro de um mapa de caça desenhado por uma inteligência que enxerga oito vezes melhor do que ele. E quando descobre, descobre tarde.

Há nessa coreografia uma lição que os naturalistas anotam com encantamento e que os homens livres deveriam anotar com pavor. Toda predação eficiente depende de altura, paciência e assimetria de informação. O predador vê o terreno inteiro; a presa vê apenas o tufo de mato em volta. O predador escolhe a hora; a presa apenas reage. O predador estuda padrões durante semanas; a presa repete a rotina porque sempre deu certo. E quando o céu fecha, ninguém ouve grito, porque a garra entra no pescoço antes do pulmão protestar.

Pois é exatamente esse desenho que se reproduz, com requintes de crueldade burocrática, na relação entre o aparelho estatal e o cidadão produtivo. Lá no alto, gabinetes climatizados leem dados de cartão, declarações de imposto, georreferenciamento de propriedade, movimentação bancária acima de não sei quantos reais, frequência em viagens internacionais, padrão de consumo no atacado. Cá embaixo, o sujeito acredita que o sigilo bancário existe, que o segredo fiscal é cláusula pétrea, que a casa é inviolável e que ninguém está olhando porque ele é pequeno demais para interessar. O coelho também achava que era pequeno demais. Foi almoço.

A genialidade do arranjo está em convencer a presa de que a altura do predador é benevolência. Falam em proteção social, em redistribuição, em justiça tributária, em combate à sonegação, em transparência, palavras douradas que produzem um efeito narcótico singular: o caçado começa a aplaudir o caçador e a chamar a garra de carícia. Quando o boleto chega, ele paga com gratidão cívica. Quando o regulador exige a quinquagésima licença para abrir uma padaria, ele agradece pela segurança alimentar. Quando a moeda perde um terço do poder de compra em três anos, ele culpa o supermercado. A presa moderna não foge; ela vota no falcão e pede mais voos rasantes sobre o vizinho.

Convém perguntar, com a frieza de quem conta dinheiro em cima da mesa, quem se alimenta dessa caçada permanente. Não é o pobre, que continua pobre. Não é o serviço público, que continua quebrado. É a casta intermediária dos despachantes do poder, a fauna de assessores, consultores, advogados de porteira, fundações temáticas, ONGs subsidiadas, sindicatos compulsórios, agências reguladoras com salário de banco, conselhos profissionais que cobram pedágio para você exercer o ofício que aprendeu sozinho. Eles são as plumas da águia. Vivem do voo, não da presa, mas precisam que o voo continue, porque sem caçada não há plumagem.

A única defesa séria do roedor é arquitetônica, não retórica. Não adianta gritar contra o céu nem escrever cartas para a cordilheira. Adianta cavar túneis, multiplicar saídas, descentralizar a toca, recusar o capim onde a sombra passa todo dia no mesmo horário. Em linguagem humana: blindar a propriedade privada por princípio, recusar a tutela mesmo quando ela vem embrulhada em presente, suspeitar com método de qualquer programa que comece pela palavra obrigatório e desconfiar visceralmente do consenso entusiasmado, porque consenso entusiasmado é o silêncio do campo antes do mergulho. Se todo mundo concorda que está tudo bem, é porque alguém já está na mira e ainda não percebeu.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.