Os números que circulam por aí sobre o custo do metro quadrado em 2026, com padrão simples beirando faixas que há dez anos pertenciam ao padrão alto, padrão médio em território antes reservado a mansões e padrão alto em valores que constrangem qualquer planilha familiar, não descrevem propriamente o preço de uma casa. Descrevem o resultado acumulado de décadas de impressão de moeda, de tributação em cascata, de regulação que multiplica licenças como praga bíblica. A casa de cem metros quadrados que outrora cabia no orçamento de um trabalhador disciplinado virou cifra de seis dígitos não porque o tijolo ficou mais nobre, mas porque a moeda em que você o compra emagreceu enquanto dormia.
Pegue qualquer saco de cimento e abra a sua composição de preço. Você encontrará, escondidos sob o pó cinzento, ICMS, IPI, PIS, Cofins, contribuições previdenciárias do funcionário da fábrica, royalties do calcário, taxa de fiscalização ambiental, encargos do caminhão que transportou, pedágio que financia a concessionária amiga, combustível taxado em níveis confiscatórios. O cimento custa, em essência, três coisas, calcário moído, energia e governo. E a parte mais cara, por uma margem desconfortável, é a terceira. Multiplique isso por cada vergalhão de aço, cada telha, cada metro de fio elétrico, cada litro de tinta. A casa que você pretende erguer já vem com um sócio oculto que não trabalhou, não suou, não emprestou nada, e ainda assim leva o naco maior.
O padrão simples, aquele que deveria ser o refúgio do pobre honesto, exige hoje aprovação em prefeitura cuja taxa engole o salário de um mês, alvará cujo despachante cobra mais que o pedreiro, ART de engenheiro, habite-se, ligação de água com taxa de religação, conta de luz com bandeira tarifária para pagar termelétrica que ninguém pediu. Cada carimbo é um pequeno tributo, cada exigência é um pequeno empregador de funcionário público, cada norma é um pequeno cartório improvisado. O sujeito que quer apenas um teto descobre que precisa antes pagar tributo a um clero invisível que jamais segurou uma colher de pedreiro mas se julga indispensável ao ato de empilhar dois tijolos.
A diferença entre padrão médio e padrão alto, nesse cenário, é menos uma questão de mármore italiano e mais uma questão de capacidade de absorver a sanha fiscal sem quebrar. Quem constrói padrão alto tem contador, tem advogado tributarista, tem arquiteto que conhece o vereador, tem empreiteiro que sabe em que gaveta enfiar qual envelope. Quem constrói padrão simples paga proporcionalmente mais, porque não tem como diluir o custo regulatório, não tem como otimizar nada, e ainda recebe fiscal na obra exigindo recuo que nenhum vizinho exigiu. A regressividade do sistema é uma piada de mau gosto que ninguém na imprensa oficial tem coragem de contar.
Há quem ainda repita o mantra de que construir caro é consequência natural da inflação global, do preço das commodities, da guerra em algum lugar distante. Bobagem confortável para quem precisa justificar o injustificável. A verdade nua, que cabe num guardanapo, é que a moeda foi corroída por quem tem o monopólio de fabricá la, os insumos foram encarecidos por quem tem o monopólio de tributá los, e o ato de construir foi burocratizado por quem vive de emitir papéis. A inflação não é fenômeno meteorológico, é política pública. Cada centavo a mais no metro quadrado tem nome, sobrenome e endereço funcional.
O brasileiro de bem, aquele que ainda acredita que poupar e construir são virtudes, precisa entender em que jogo está metido. A casa própria, antes símbolo de independência e raiz, virou ato de resistência contra um sistema que prefere te ver inquilino eterno, dependente de programa habitacional, devedor de banco estatal, refém de financiamento subsidiado que custa três vezes o valor do imóvel ao longo de trinta anos de servidão consentida. O metro quadrado caro não é acidente, é projeto. E enquanto a conta vier em forma de tabela técnica, ninguém perceberá que o verdadeiro arquiteto desse desastre não desenhou planta nenhuma, apenas decretos.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.