Uma kitnet de quarenta metros quadrados. Quatro paredes, um banheiro, uma janela e o sonho modesto de quem quer transformar poupança em renda. Parece simples. E seria, se vivêssemos num mundo onde a relação entre o homem e sua propriedade fosse direta, honesta, sem intermediários de colete e crachá. Mas não é esse o mundo que temos. O que temos é um país onde construir uma kitnet exige que você primeiro financie, compulsoriamente, tudo aquilo que torna a construção cara: a inflação monetária que corrói o poder de compra do material, a burocracia que transforma semanas em meses, os encargos trabalhistas que fazem o custo da mão de obra ser quase o dobro do salário que o trabalhador recebe na mão. Antes de bater o primeiro prego, o proprietário já foi roubado. E o pior: de forma perfeitamente legal.

Vamos ao concreto, que é de onde toda análise honesta deve partir. O custo do metro quadrado de construção no Brasil subiu de forma consistente nos últimos anos, e a narrativa oficial atribui isso à "pressão da demanda" e ao "aquecimento do setor". Bela forma de dizer que o governo imprimiu dinheiro, diluiu o valor da moeda e agora os sacos de cimento custam o que custam. O aço, o fio elétrico, o piso, a argamassa, tudo subiu. Não porque ficaram mais raros, não porque a natureza decidiu escassear o calcário, mas porque a unidade de medida com a qual compramos essas coisas foi sistematicamente degradada por décadas de política monetária irresponsável. A inflação não é um fenômeno climático. É uma decisão. E quem paga a conta não é quem decidiu.

Some ao custo inflacionado dos materiais o custo da regularização. Projeto arquitetônico aprovado no município, ART do engenheiro, alvará de construção, habite-se ao final, registro em cartório, ITBI na transferência se for o caso. Cada um desses passos custa dinheiro, custa tempo e, o que mais machuca quem faz conta séria, custa oportunidade. O tempo que o alvará demora para sair é tempo em que o capital está parado, sem render, sem trabalhar. Nenhum manual de engenharia ensina a calcular o custo do absurdo burocrático, mas ele está lá, embutido no preço final como gordura que nenhuma dieta consegue eliminar porque a gordura, nesse caso, é o próprio Estado. E ele não faz dieta. Ele engorda.

Há ainda a questão da mão de obra, talvez o capítulo mais cruel dessa história. O pedreiro recebe X. O proprietário paga quase 2X. O que fica no meio não some: vai para INSS, FGTS, SESI, SENAI, SEBRAE e uma coleção de siglas que ninguém pediu e todos pagam. Esses encargos existem, segundo seus defensores, para "proteger o trabalhador". Resultado prático: boa parte da construção civil opera na informalidade, exatamente para escapar dessa proteção tão generosa. O trabalhador informal não tem a proteção que o Estado promete e o proprietário não tem o recibo que o Estado exige. Todo mundo perde, exceto o aparato que cobra a taxa de manter esse sistema funcionando. É a lógica perfeita do absurdo institucionalizado: cria o problema, cobra para resolvê-lo, fica com o dinheiro e o problema continua.

O resultado final de tudo isso é que construir uma kitnet de quarenta metros quadrados para alugar se tornou uma aposta de risco médio com retorno de paciência infinita. O custo de construção, somado ao custo regulatório, ao custo tributário sobre o aluguel recebido e ao risco jurídico de um inquilino que a lei protege mais do que protege o dono do imóvel, faz o cálculo fechar no limite do razoável, quando fecha. E enquanto o Estado anuncia programas habitacionais bilionários para resolver a crise de moradia que ele mesmo criou, o pequeno investidor que queria construir uma kitnet honesta, com dinheiro suado, em terreno que pagou, faz a conta e entende que o inimigo da habitação popular não é a ganância do mercado. É o custo do Estado que mora dentro de cada obra, invisível, inegociável e pontualmente pago por quem trabalha.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.