Existe uma crueldade específica em dizer ao trabalhador que ele pode sonhar com casa própria enquanto o Estado que faz esse discurso é o mesmo que encarece cada tijolo, cada saco de cimento, cada metro de fiação elétrica que essa casa vai precisar. Em 2026, levantar uma construção simples de dois quartos no interior do Brasil, sem frescura, sem granito importado, sem nada que não seja o básico decente para uma família dormir com dignidade, custa entre R$ 180 mil e R$ 260 mil, dependendo da região, do solo e de quantos atravessadores o mercado local conseguiu enfiar entre o sonho e a laje. O número, por si só, já seria um escândalo. O escândalo de verdade é o que esse número não conta.
O metro quadrado, aquela fórmula mágica que todo engenheiro e toda construtora usa como régua, virou uma mentira estatística de primeira categoria. Ele mede o custo da área construída dentro de condições ideais de laboratório: mão de obra uniforme, fornecedor competitivo, logística azeitada. Fora do laboratório, no mundo real onde o pedreiro cobra o dobro porque o concorrente foi trabalhar na obra do governo municipal, onde o ferro subiu trinta por cento em doze meses por causa de uma cadeia produtiva amarrada por tributação cumulativa, onde o caminhão que leva o material cobra pedágio em cinco trechos da mesma estrada que o contribuinte já pagou dezessete vezes, o metro quadrado não passa de uma ficção bem formatada. Quem constrói sabe. Quem calcula no papel não quer saber.
Há uma lógica perversa que os impérios em decadência sempre reproduzem, da Roma do século três aos regimes de bem-estar do século vinte: o Estado cria o problema, oferece a solução subsidiada e cobra o preço político da dependência. O programa habitacional de plantão, qualquer que seja o nome e o ministério que o assina, funciona exatamente assim. Ele injeta dinheiro artificial no mercado de construção civil, o que eleva os preços dos insumos para quem constrói por conta própria, ao mesmo tempo em que cria uma burocracia de habilitação que exige certidões, projetos aprovados, ART de engenheiro, laudos e mais laudos, tudo isso num processo que no interior profundo pode levar meses e custar uma fração considerável do orçamento total. O homem que quer construir a própria casa com as próprias economias paga, na prática, para financiar o concorrente subsidiado que vai construir no lote ao lado.
Nenhuma análise séria sobre o custo de construção no Brasil interior pode ignorar o que aconteceu com os materiais nos últimos quatro anos. O aço, insumo básico de qualquer estrutura com pretensão de durar, acumulou reajustes que nenhum salário acompanhou. O cimento, produto de mercado oligopolizado com grau de concentração que faria corar qualquer defensor da livre concorrência, obedece a uma precificação que é mais acordo de cavalheiros do que mercado. A cerâmica, os blocos, a areia, a brita: cada um desses itens carrega embutido um fardo tributário cumulativo que transforma o canteiro de obras num posto de arrecadação disfarçado. Não é exagero retórico. É aritmética: calcule os impostos incidentes sobre cada etapa da cadeia, da extração ao consumo final, e pergunte-se honestamente quantos metros quadrados são financiados pelo trabalho e quantos pelo fisco.
O trabalhador do interior, esse sujeito concreto que acorda às cinco da manhã, poupa durante anos, recusa viagens e dispensas e pequenos prazeres, e ao fim de um tempo razoável olha para a poupança e descobre que ela não cobre mais o que cobria há três anos, esse homem não é uma abstração sociológica para ser mencionada em discurso de inauguração. Ele é a vítima direta de uma política monetária que corrói o poder de compra da moeda que ele guardou com disciplina, de uma política tributária que onera cada material que ele vai comprar e de uma política regulatória que torna o ato de construir um labirinto de autorizações desenhado por quem nunca segurou uma colher de pedreiro. O custo real de dois quartos no interior não é só o que aparece no orçamento do engenheiro. É também o custo invisível da liberdade que foi confiscada tijolo por tijolo, ano por ano, lei por lei.
Perguntar quanto custa levantar uma casa simples é, no fundo, perguntar quanto custa ser livre num país onde o Estado decidiu que liberdade é um produto de luxo. A resposta, em 2026, é que custa mais do que deveria, mais do que antes e, se a trajetória não mudar, mais do que amanhã. Isso não é pessimismo. É geometria.
Com informações d'O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.