Washington Quaquá, prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, encontrou-se em São Paulo com Silvio Almeida, o ex-ministro dos Direitos Humanos cuja saída do governo Lula foi uma das maiores gafes institucionais dos últimos anos. O convite: assumir funções em projetos culturais e educacionais no município. Divulgado pelo próprio prefeito nas redes sociais, com o sorriso largo de quem não vê contradição alguma no que faz. E é exatamente aí que o escândalo mora, não no convite em si, mas na total ausência de embaraço diante dele.
Silvio Almeida foi demitido em agosto de 2024 após denúncias de assédio sexual contra múltiplas mulheres, incluindo relatos que envolviam a própria ministra Anielle Franco. O ministério que ele chefiava chamava-se Direitos Humanos e da Cidadania. Repita essa frase em voz alta até que o absurdo se deposite no osso. O homem designado pelo Estado brasileiro para ser a encarnação institucional da proteção das pessoas vulneráveis foi acusado, por mulheres, de exatamente o tipo de conduta que sua pasta existia para combater. Não houve processo, não houve transparência, houve demissão rápida e silêncio estratégico. E agora, menos de dois anos depois, o mesmo homem reaparece convidado para moldar a cultura e a educação de uma cidade inteira.
Maricá não é qualquer município. É o laboratório do petismo com dinheiro, e dinheiro não falta: a cidade recebe royalties do petróleo em volume desproporcional à sua população, o que a transformou numa espécie de califado progressista onde se testam moedas sociais, renda básica universal, empresas públicas municipais e um sem-fim de projetos que, por acaso ou não, empregam quadros do partido com generosidade admirável. Quando uma sigla controla o orçamento de uma cidade por décadas, o município deixa de ser um ente federativo e se torna um feudo. Feudo tem senhores, e senhores têm aliados que precisam de abrigo depois da tempestade. Silvio Almeida está em busca de abrigo, e Quaquá tem dinheiro público para oferecer.
Há uma lógica interna, perversa e consistente, nesse tipo de movimento. Não é hipocrisia no sentido de fraqueza moral ocasional. É hipocrisia como sistema, como método de governança. O discurso dos direitos humanos nunca foi sobre proteger pessoas concretas de agressores concretos. Foi sempre sobre controlar a narrativa de quem merece proteção e quem merece perseguição. Quando o agressor está dentro do círculo, o sistema fecha os olhos, baixa a cabeça e espera a poeira baixar. Depois de alguns meses, reabre as portas dos cargos e dos contratos. O acusado de fora é monstro para sempre. O acusado de dentro é um homem que "cometeu erros" e "está sendo trabalhado".
A pergunta que nenhum jornalista vai fazer a Quaquá é a mais simples de todas: com qual dinheiro? Projetos culturais e educacionais em Maricá são financiados com recursos do município, ou seja, com os royalties do petróleo que teoricamente pertencem aos moradores da cidade. Qual será a remuneração? Qual o escopo do cargo? Haverá licitação, concurso, processo seletivo, ou apenas um telefonema entre amigos num café paulistano? A divulgação nas redes sociais do prefeito funciona como anúncio de benevolência, nunca como prestação de contas. E a imprensa, na maioria dos casos, trata o fato como curiosidade política, não como o que é: a utilização de recursos públicos para reabilitar um aliado constrangedor.
Quem estuda história sabe que toda oligarquia tem seu mecanismo de ressurreição para os caídos em desgraça. Roma tinha o exílio dourado. A nobreza europeia tinha os mosteiros onde se guardavam os inconvenientes. O PT tem os municípios petistas, as fundações, os conselhos, os projetos culturais. A diferença é que Roma, ao menos, não chamava o exílio de política de direitos humanos. Maricá vai receber um homem demitido por assédio para trabalhar com educação. Que os pais de família da cidade fiquem atentos, não ao discurso, mas ao que está sendo feito com o dinheiro deles.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.