O Instituto Nacional do Seguro Social acumula, neste momento, uma fila que envergonharia qualquer cartório de cidade do interior, e a solução encontrada pelo governo foi a mais clássica e a mais inútil de todas: trocar o nome na porta da sala. Gilberto Waller Júnior foi afastado sob o peso das cobranças por melhorias que não vieram e de filas que não diminuíram. Em seu lugar, assume Ana Cristina Viana Silveira, servidora de carreira, produto da mesma máquina que produziu o problema que ela agora supostamente vem resolver. É como tentar apagar o fogo com gasolina de outro galão.
Existe uma lógica perversa e precisa nesse tipo de movimentação, e ela não é acidental. O Estado não troca gestores para melhorar o serviço; troca gestores para sobreviver à pressão política. A diferença é sutil na superfície e abissal na essência. Quando um burocrata falha, o custo recai sobre os segurados que esperaram meses por uma aposentadoria, por uma pensão por morte, por um auxílio que pagaram a vida inteira para receber. Quando o mesmo burocrata é afastado, ele não perde o cargo, não perde o salário, não perde a estabilidade. Vai para outra função, com o mesmo contracheque, protegido pelo mesmo estatuto que protege todos os outros. Quem paga a conta é sempre o mesmo: o contribuinte que financia o sistema que o maltrata.
A Ana Cristina entra como "servidora de carreira", expressão que no Brasil funciona como certidão de nobreza às avessas. Quer dizer que ela passou num concurso, que o Estado a adotou e que, a partir desse momento, o nexo entre desempenho e permanência foi cortado de vez. Nenhuma empresa privada sobreviveria com esse modelo. Nenhum profissional autônomo dormia tranquilo sabendo que o cliente estava na fila há seis meses. Mas o INSS não é uma empresa e seus dirigentes não são profissionais no sentido que o mercado conhece esse termo. São ocupantes de cargos, administradores de orçamentos alheios, gestores de dinheiro que não é deles e de paciência que não é deles testar.
Pergunte-se, com a frieza de quem quer entender e não de quem quer se emocionar: o que exatamente mudou com essa troca? As filas estão lá. O sistema de agendamento está lá. A burocracia que impede a digitalização eficiente, que protege os postos de atendimento presencial porque postos de atendimento presencial sustentam servidores, que resiste a qualquer racionalização porque racionalização significa menos gente e menos gente significa menos poder sindical, tudo isso continua intacto. O que saiu foi um nome. O que entrou foi outro nome. O problema, esse, ficou.
Há uma crueldade específica nesse arranjo que merece ser nomeada sem eufemismo. O segurado do INSS, na sua maioria, é o trabalhador de renda baixa ou média que passou décadas contribuindo compulsoriamente, sem escolha, sem alternativa, sem a possibilidade de direcionar esse dinheiro para qualquer outra forma de poupança ou previdência privada. O Estado sequestrou essa decisão. Tomou o dinheiro. Prometeu o benefício. E agora, na hora de honrar o compromisso, apresenta filas, prazos absurdos, erros cadastrais e, como desfecho glorioso de toda essa tragédia administrativa, uma nova presidente de carreira para gerir o mesmo caos com outro cartão de visita. Chama-se isso de serviço público. Seria mais honesto chamar pelo que é.
A história já viu esse filme inúmeras vezes, em regimes e contextos distintos, e o enredo nunca muda muito: a instituição falha, a pressão popular sobe, sacrifica-se o rosto mais exposto, instala-se outro burocrata no trono, e o sistema respira por mais um ciclo antes que a pressão volte. O que nunca se discute, o que nunca entra na pauta, é a pergunta mais simples e mais devastadora de todas: por que o trabalhador brasileiro não pode decidir ele mesmo onde coloca sua poupança previdenciária? Por que um único instituto, gerido por pessoas que nada perdem quando erram, tem o monopólio compulsório de décadas de contribuição de milhões de pessoas? Enquanto essa pergunta não for respondida, a troca de presidentes do INSS é apenas teatro, e um teatro barato, daqueles que encerram sempre com a plateia pagando o ingresso duas vezes.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.