O maior goleador panamenho na história das Copas do Mundo é um zagueiro. Não um centroavante, não um camisa dez, não um craque revelado nas categorias de base. Um zagueiro de trinta e sete anos chamado Felipe Baloy, que fez exatamente um gol, no único Mundial que o país disputou, num jogo em que a Inglaterra já vencia por seis a zero quando a bola entrou. Esse é o panteão inteiro. Cabe num chute. E o curioso é que ninguém ri disso, porque a indústria do futebol aprendeu a vender qualquer coisa como conquista, contanto que tenha bandeira, hino e um locutor com a voz embargada.
O fato concreto é simples e quase melancólico. Panamá estreou em Copas em 2018, na Rússia, depois de décadas batendo na trave das eliminatórias da Concacaf. Foram três jogos, três derrotas, dois gols marcados e onze sofridos. Um dos gols foi contra, um presente do goleiro tunisiano. O outro saiu do pé de Baloy, aos quarenta e cinco do segundo tempo, com o placar já indecente. O time voltou para casa de mãos vazias, e ainda assim houve festa em Cidade do Panamá, feriado decretado, presidente abraçando jogador derrotado em pista de aeroporto. Quem paga essa festa? O contribuinte panamenho, claro. Quem recebe os louros? A classe política, que descobriu, como tantas outras, que vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola servem perfeitamente como cortina de fumaça para qualquer crise fiscal.
É preciso entender o mecanismo. Toda seleção pequena que chega a uma Copa vira ativo simbólico do governo de plantão. A federação, normalmente uma estrutura semipública mantida por isenções, contratos com estatais e patrocínios de bancos próximos do poder, aprende rápido que perder com dignidade rende mais do que vencer com humildade. Cria-se a narrativa do herói trágico, do país pequeno que ousou sonhar, do gol da honra. Baloy virou estátua viva, garoto propaganda, conferencista motivacional. A pergunta que ninguém faz é quanto custou levar aquela delegação à Rússia, quanto rendeu em comissões para dirigentes, quanto sumiu nos contratos de hospedagem inflados, e quem assinou o cheque no fim. Spoiler: o cheque é sempre assinado pelo mesmo otário, aquele que paga imposto e não vai à Copa nenhuma.
A lógica é cruel quando se aplica sem anestesia. Se um único gol em três partidas faz de um zagueiro o maior artilheiro histórico de uma seleção, então a seleção não tem história, tem episódio. Confundir episódio com tradição é o esporte favorito dos vendedores de ilusão, que precisam transformar acaso em destino para que a próxima eliminatória renda novos contratos de televisão, novos patrocínios, novos pacotes turísticos para a torcida. O gol de Baloy foi bonito, foi emocionante, foi merecido pelo sujeito que aguentou trinta e sete anos de chuteira no pé. Mas era um gol de honra num seis a um, e qualquer adulto sóbrio sabe a diferença entre consolo e conquista. A indústria, no entanto, paga melhor pelo consolo, porque o consolo se vende em loop, ano após ano, ciclo após ciclo.
Há ainda a parte rotineira, esse hábito latino-americano de transformar futebol em sucedâneo de política externa. Países que não conseguem entregar saneamento básico, segurança pública ou moeda estável descobrem que uma classificação para a Copa rende mais aplauso do que uma reforma tributária honesta jamais renderia. O presidente posa com a camisa, o ministro do esporte aparece no vestiário, o senador puxa o microfone e fala em unidade nacional. Enquanto isso, o orçamento da federação segue opaco, os contratos seguem sem licitação aberta, e a torcida, anestesiada pelo hino, segue achando que a bandeira no peito do jogador é a mesma bandeira que cobre a sua casa. Não é. Nunca foi.
Então fica o registro, com o devido humor que o caso merece. O maior artilheiro da seleção do Panamá em Copas é um zagueiro veterano que marcou uma vez, num jogo perdido, contra um adversário que já estava de banho tomado. É uma estatística honesta, dessas que envergonham se forem lidas sem trilha sonora. E talvez seja por isso mesmo que ela merece ser lembrada, porque enquanto a torcida canta, alguém, em algum gabinete, está somando os zeros do contrato e rindo de quem ainda acredita que aquilo tudo é sobre a bola.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.