Dez assistências em Copas do Mundo. O número é seco, indigesto, impossível de relativizar. Não há comissão parlamentar capaz de redistribuí-lo, não há ministério capaz de criar um programa social que transforme um chute desviado em passe decisivo, não há narrativa de imprensa engajada que consiga reescrever o placar. O maior jogador de todos os tempos lidera o ranking histórico da seleção brasileira nesse quesito, e o fato bruto se impõe com a mesma indiferença com que a gravidade derruba castelos de areia ideológicos. Quem fez, fez. Quem não fez, ficou olhando.
O futebol, por enquanto, ainda é uma das raríssimas atividades humanas em que o resultado não pode ser falsificado pela retórica. O passe ou chega ou não chega. O companheiro ou marca ou perde. A bola, essa antiga inimiga das boas intenções, não consulta planilha de equidade antes de entrar no gol. E é precisamente por isso que o esporte sobrevive como espetáculo legítimo: cada lance é um pequeno mercado livre, transação voluntária entre quem dá e quem recebe, validada na hora pelo único árbitro que importa, o resultado.
Compare isso com qualquer outro setor capturado pelo aparato estatal. Na cultura, o talento é substituído pelo edital. Na educação, o aprendizado é substituído pelo diploma. Na economia, a produção é substituída pelo carimbo. Em todos esses domínios, o homem médio passou a viver de medir intenções, processos, declarações de princípio, enquanto a entrega concreta apodrece. Já um passe decisivo dado em campo gramado, diante de oitenta mil testemunhas, é a forma mais antiga e mais honesta de prestação de contas que a humanidade inventou desde os jogos de Olímpia. Não há como simular.
E aqui mora a pequena ironia que envenena qualquer ranking esportivo brasileiro. O jogador que aparece no topo dessa lista construiu sua excelência apesar do país, não graças a ele. Treinou em campos improvisados, foi vendido cedo para clubes que pagavam em moeda forte, prosperou em ligas estrangeiras onde o fisco confisca menos do que aqui, e voltou apenas em datas oficiais para vestir o uniforme da nação que tributa pesadamente quem ousa produzir. A glória é coletiva, a conta é individual, o cheque foi descontado no exterior. Siga o dinheiro e descubra que toda celebração patriótica em torno desses números esconde uma fuga silenciosa de capital humano que o Brasil nunca conseguiu reter por mérito próprio.
Os mesmos cronistas que se emocionam com as assistências históricas votam, na semana seguinte, em candidatos que prometem taxar o craque, regular o contrato, nacionalizar a transferência, criar agência reguladora do drible. Querem o espetáculo sem entender que ele só existe porque, em algum momento, alguém escapou do cerco. O passe perfeito é filho da liberdade de movimento, da propriedade sobre o próprio corpo, da possibilidade de assinar contrato com quem oferece mais. Tirem isso e sobra futebol de várzea com uniforme oficial, que é mais ou menos o que vemos quando a seleção se reúne sem seus exilados de luxo.
Dez assistências, portanto, não são apenas dez passes para gol. São dez pequenos monumentos ao indivíduo que recusou a mediocridade compulsória, dez recibos de que o talento, quando deixado em paz, ainda produz milagres. O ranking histórico é, no fundo, um documento subversivo: prova que a hierarquia natural entre os capazes e os medíocres existe, persiste, e zomba de toda tentativa burocrática de aboli-la. Por isso emociona. Por isso incomoda. Por isso, mais cedo ou mais tarde, alguém vai propor uma lei para regulamentá-lo.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.