O queniano largou em Londres antes do sol nascer direito e, duas horas depois, tinha quebrado uma barreira que parecia física, biológica, quase teológica. Uma hora, cinquenta e nove minutos e trinta segundos para varrer quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros. No bolso, um milhão e oitocentos mil reais. No currículo, a prova de que o corpo humano, quando treinado por vontade própria e remunerado por mérito próprio, ainda faz coisas que nenhum decreto, nenhuma comissão, nenhum ministério da igualdade jamais sonhou produzir.
Pare e olhe a trilha do dinheiro, porque ela conta a história verdadeira. Quem pagou aquele prêmio? Não foi o contribuinte queniano, não foi o britânico, não foi a ONU, não foi nenhum fundo de combate à pobreza extrema. Foram patrocinadores privados, marcas esportivas, emissoras que vendem publicidade, espectadores que compraram ingresso, cervejaria que estampou o logo na faixa de chegada. Cada centavo daquele um milhão e oitocentos mil saiu do bolso de alguém que escolheu colocar, em troca de visibilidade ou da pura emoção de assistir. Isso se chama transação voluntária, e é exatamente o oposto do mecanismo pelo qual o seu salário some todo mês antes mesmo de cair na conta.
Compare. O sujeito treinou doze, quinze anos, em altitude, comendo ugali e correndo descalço quando criança. Ninguém foi à porta dele com decreto obrigando o vizinho a financiar o sonho. Ninguém criou Secretaria Nacional de Fomento à Maratona Africana. Ele correu porque quis, treinou porque escolheu, foi pago porque entregou. O contrato é tão simples que ofende a inteligência burocrática contemporânea, aquela que precisa de quatrocentas páginas de edital para comprar um pacote de café. A excelência floresce onde o Estado ainda não chegou para regular, taxar e distribuir cotas de quem pode correr rápido e quem deve correr devagar em nome da equidade.
E note a ironia geográfica. O queniano vem de um país que, segundo todos os manuais de desenvolvimento publicados por agências multilaterais, deveria estar condenado à miséria perpétua até receber o próximo empréstimo do Banco Mundial. Pois bem, o sujeito ignorou o manual, calçou um tênis, correu mais rápido do que qualquer ser humano já correu naquela distância e ganhou, em duas horas, o que um economista do FMI demora trinta anos para ganhar emitindo relatório sobre a pobreza alheia. A diferença entre os dois é que um produz valor, o outro produz papel timbrado.
Agora faça a conta sobre o seu lado do oceano. Para um trabalhador brasileiro juntar um milhão e oitocentos mil reais limpos, descontados imposto de renda, INSS, IPVA, IPTU, ICMS embutido em cada lata de feijão, contribuição sindical compulsória e a alíquota silenciosa da inflação que come o poder de compra enquanto você dorme, são necessárias décadas de servidão fiscal. O queniano fez aquilo em duas horas porque o prêmio dele não passou pela peneira de trinta e oito tributos federais, estaduais e municipais antes de chegar à conta. Eis a lição que ninguém quer ensinar na escola pública: a riqueza não é escassa porque falta dinheiro no mundo, é escassa porque há um aparato inteiro montado para confiscar a sua antes que vire patrimônio.
Sobra o silogismo, simples e brutal. Onde há liberdade de contratar, talento é recompensado. Onde talento é recompensado, surgem os recordes. Logo, todo recorde humano relevante é, antes de tudo, um monumento ao mercado e uma bofetada no planejador central. Aplauda o queniano, porque ele acaba de provar, em duas horas de televisão ao vivo, aquilo que três gerações de professores universitários gastaram suas carreiras tentando esconder de você. Quem paga, escolhe. Quem entrega, recebe. O resto é discurso de cerimônia para encobrir o confisco.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.