A notícia chega embrulhada em papel de presente científico, mas o conteúdo é bem mais cínico do que parece. Pesquisadores descobriram, com a solenidade de quem reinventa a roda, que a vitamina B12 é decisiva para o envelhecimento saudável, para a preservação da massa muscular, para o metabolismo e para o sistema nervoso. Traduzindo do dialeto acadêmico para o português dos mortais: aquela molécula barata, presente em ovo, fígado e carne vermelha, faz exatamente o que avós analfabetas em ciência diziam que fazia desde que o mundo é mundo. A diferença é que agora há um paper chancelando a obviedade, e onde há paper, há orçamento.

A pergunta que ninguém faz no telejornal é a única que importa: por que essa descoberta demorou tanto a virar manchete? A resposta está na contabilidade. Uma vitamina que custa centavos por dose não sustenta departamento de marketing, não banca congresso em resort, não financia cátedra universitária. Já um medicamento patenteado para sarcopenia, para declínio cognitivo, para fadiga metabólica, esse sim move a engrenagem. O sistema premia a descoberta cara e ignora a barata, não porque a ciência seja burra, mas porque quem paga a conta da pesquisa decide qual pergunta vai ser feita. Siga o cheque e você encontrará a hipótese.

Há aqui um padrão antigo, daqueles que se repetem desde que mercadores descobriram que vender escassez fabricada rende mais que vender abundância natural. Na Roma tardia, sal era controlado pelo fisco; na França pré-revolucionária, o monopólio do sal financiava a corte enquanto o camponês adoecia por falta dele. Hoje a lógica é a mesma, apenas com jaleco branco no lugar da peruca empoada. O que é abundante e barato vira invisível; o que é caro e patenteado vira urgente. E o cidadão, dócil consumidor de bula, engole o roteiro junto com o comprimido de quinze reais quando bastava o pedaço de fígado de dois.

Some-se a isso o detalhe deliciosamente perverso da política nutricional dos últimos quarenta anos. Décadas de campanha oficial demonizando a carne vermelha, o ovo, a manteiga, justamente os alimentos mais densos em B12, em colina, em ferro biodisponível. Ao mesmo tempo, recomendou-se substituir tudo isso por carboidratos refinados subsidiados pelo próprio governo, e depois, num movimento de espantoso cinismo, criou-se a indústria do suplemento para repor o que a pirâmide alimentar oficial mandou retirar do prato. O Estado primeiro empobrece sua dieta, depois vende a muleta. É a velha receita: produzir o problema com uma mão, faturar a solução com a outra.

O envelhecimento saudável, no fim das contas, é menos sobre fórmulas mágicas e mais sobre recuperar a soberania sobre o próprio corpo. Comer comida de verdade, mexer-se, dormir, expor-se ao sol, manter laços, ter propósito. Coisas que não rendem patente nem comissão de bula, e por isso mesmo são tratadas como folclore por quem vive de complicar o simples. A vitamina B12 não é segredo nenhum, é apenas a ponta visível de uma verdade incômoda: a saúde, em larga medida, é privatizada na origem e socializada apenas no discurso. Cada um cuida do seu fígado, ou paga caro para que outro finja cuidar.

Resta a pergunta com que se começa e se termina toda análise honesta: quem paga e quem recebe? Paga o aposentado que compra suplemento importado, paga o jovem que troca alimento real por barrinha proteica, paga o contribuinte que sustenta agência reguladora capturada. Recebe o laboratório que patenteia a versão sintética, recebe o influenciador que vende o frasco com selo, recebe o burocrata que viaja para o congresso patrocinado. A B12 é apenas o pretexto. O negócio, como sempre, é a sua confiança ingênua de que o sistema está do seu lado.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.