Rafael Leão anuncia a despedida do Milan ao fim da temporada com a liturgia de sempre, mão no peito, voz embargada, a frase ensaiada de que entregou tudo que tinha durante seis anos, 291 jogos, 80 gols, 57 assistências. Belíssimo número, comovente narrativa, e nenhuma palavra sobre o que verdadeiramente move a saída: o contrato de quase sete milhões de euros líquidos por temporada, a cláusula que evapora, a janela de mercado que se fecha aos 26 anos antes que o valor de revenda comece a derreter. O torcedor chora, o empresário sorri, e a contabilidade do clube respira aliviada por se livrar do segundo maior salário do elenco sem precisar bancar o passe inteiro.
Há algo de cômico na encenação do futebol moderno, que insiste em vender como romance aquilo que é, na origem e no fim, transação comercial entre partes muito bem assessoradas. O jogador que beija o escudo é o mesmo que, há dois anos, ameaçou não renovar caso o salário não dobrasse, e dobrou. O clube que fala em projeto vitorioso é o mesmo que terminou o Campeonato Italiano fora das competições europeias mais lucrativas, situação que, traduzida em euros, significa cortar custos com urgência. Os dois lados se abraçam para a foto, ambos sabendo que o abraço dura exatamente o tempo da assinatura do próximo contrato em outro lugar.
Convém lembrar que o futebol europeu, esse espetáculo de bilhões que se vende como cultura popular, opera sob uma lógica que envergonharia o mais cínico dos mercadores venezianos do século quinze. O atleta é um ativo, deprecia a partir dos 28, valoriza enquanto jovem, e cada movimentação de janela é precificada em centímetro de planilha. A cláusula de Leão no Milan, fixada em 175 milhões de euros, era um cadeado simbólico que ninguém pretendia abrir, mas que sinalizava ao próximo comprador o piso da negociação. Saindo por menos, todos ganham: o clube embolsa caixa, o jogador renegocia salário maior, o empresário fatura a comissão de praxe, e o torcedor fica com o pôster autografado.
A frase "dei tudo que tinha" merece tratamento aristotélico, daqueles que separam o que é dito do que de fato aconteceu. Em seis temporadas, Leão alternou jogos memoráveis com tardes de invisibilidade olímpica, conquistou um título italiano em 2022 e desapareceu nas semifinais europeias quando o time mais precisou. Dar tudo que se tinha, no léxico esportivo contemporâneo, costuma significar dar exatamente o necessário para manter o valor de mercado intacto até a próxima transferência. É uma forma curiosa de heroísmo, a do herói que mede o esforço pelo cifrão da próxima parada.
O destino mais provável atende pelo nome de Premier League, onde os clubes ingleses, financiados por fundos do Golfo, oligarcas reciclados e direitos televisivos que fazem a Champions parecer feira de bairro, transformaram o mercado em leilão permanente. Chelsea, Arsenal, Manchester United, todos rondam, todos oferecem o triplo do que o Milan paga, e nenhum deles está preocupado com a tal entrega emocional do jogador. Querem os números, a velocidade, os anos de prateleira que restam antes da depreciação. O resto é teatro para alimentar a indústria de manchetes e vender camisa nova com nome novo nas costas.
No fim, a história de Leão é a história sintética do futebol como ele é, não como gostariam que fosse. Um jovem talentoso saiu do Sporting para o Milan por uma pechincha de 35 milhões em 2019, valorizou seis vezes, ajudou a faturar troféu, recebeu fortunas, e parte agora rumo ao próximo cheque sem dever satisfação a ninguém, porque jamais a deveu. O torcedor milanista que se prepare para o luto curto e para o aplauso obrigatório no último jogo em San Siro, ritual que serve menos para honrar o craque do que para inaugurar o calendário promocional do substituto. O dinheiro entra, o dinheiro sai, e o espetáculo continua, indiferente às lágrimas de plantão.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.