O ex-diretor-geral da Polícia Federal, ex-deputado, ex-confiável do ex-presidente, encontrou na segunda-feira, 13 de abril, o destino que o universo reserva com especial carinho para quem confunde cargo com propriedade: uma ficha no sistema do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, na Flórida, com o seu nome e a expressão "sob custódia". Ramagem, que por anos foi o homem que assina os mandados, virou o homem do mandado. A roda gira. A pergunta que ninguém faz em voz alta, mas que estrutura toda a narrativa, é simples: a que serviço esteve esse homem, e a serviço de quem está agora a perseguição?

Não se trata de defender Ramagem, que não merece defesa nem ataque automático. Trata-se de entender a mecânica. Quando alguém sobe ao topo de uma polícia política, seja qual for o governo que o colocou lá, ele não está servindo à lei abstrata nem à Constituição que todos juram e ninguém lê. Está servindo a uma facção específica do poder, com interesses específicos, endereços específicos e contas bancárias muito bem identificáveis. O aparato do Estado não flutua no ar como uma entidade benevolente e imparcial. Ele tem donos de turno. E os donos de turno mudam.

Eis o silogismo que a imprensa consensual se recusa a montar: se o Estado é neutro, seus instrumentos são neutros; seus instrumentos nunca foram neutros; portanto o Estado não é neutro. Simples assim. O que muda de um governo para outro não é a natureza do poder, é o endereço para o qual o poder é direcionado. Ramagem usou a Polícia Federal como braço político sob um governo; agora o braço político de outro governo o persegue através de canais diplomáticos e acordos internacionais. O contribuinte brasileiro pagou pelos dois lados dessa equação e não foi consultado em nenhum momento. Essa é a piada que custa caro demais para ter graça.

Existe uma certa poesia macabra em ver alguém que viveu dentro da máquina ser triturado por ela. O Estado é, por natureza, o maior fabricante de inimigos do Estado. Todo funcionário de alto escalão sabe, no fundo da consciência que ainda sobreviveu à carreira, que o mesmo aparato que o elevou é capaz de destruí-lo quando o vento muda. Isso não é novidade histórica: é o padrão desde que reis começaram a decapitar conselheiros e imperadores passaram a exilar generais. A diferença, em 2026, é que a perseguição tem cobertura ao vivo e o exilado vai parar no registro eletrônico de uma agência americana que, diga-se, tem seus próprios históricos de abuso de poder bem documentados.

A questão que sobra, depois que a fumaça do escândalo do dia se dissipa, é estrutural: o cidadão comum, aquele que nunca comandou nada, que nunca teve acesso a nenhuma das alavancas que Ramagem operou, que paga impostos para sustentar a Polícia Federal, o STF, a estrutura diplomática que articula pedidos de cooperação internacional, esse cidadão sai ganhando o quê com essa narrativa? A resposta honesta é: nada. Sai perdendo tempo, atenção e dinheiro. O espetáculo do poderoso caído serve ao poder que o derrubou, não ao povo que assiste. O circo tem sempre um novo leão e uma nova arena, mas o ingresso, esse, o contribuinte paga compulsoriamente.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.