Há uma cena que se repete ao longo da história com a regularidade de um fenômeno natural: o homem que serviu ao poder, que conhece os mecanismos por dentro, que sabe como os acordos são feitos nos corredores onde as câmeras não chegam, esse homem decide, em determinado momento, que está seguro. Que as garantias recebidas são sólidas. Que a palavra dada vale alguma coisa. E então o Estado, com a brutalidade educada que lhe é característica, demonstra que não. Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência e deputado federal com mandato suspenso, disse publicamente, há cinco meses, que se encontrava em território americano com a anuência do governo dos Estados Unidos. Estava, nas suas palavras, seguro. O ICE tinha outro entendimento.
Existe uma falácia que contamina o raciocínio de praticamente todo operador político: a ideia de que acordos entre governos têm a solidez de contratos entre pessoas. Não têm. Um contrato entre pessoas pode ser exigido, pode ser levado ao judiciário, pode ter consequências para quem o descumpre. Um acordo entre governos, especialmente os informais, os sussurrados, os que existem apenas na memória de dois ou três interlocutores, dura exatamente enquanto serve aos interesses de quem tem mais poder de barganha naquele instante específico. Ramagem deve saber disso melhor do que ninguém, dado o cargo que exerceu. O problema é que saber de uma coisa intelectualmente e entender ela na pele são experiências radicalmente distintas.
A questão que ninguém está fazendo com a seriedade devida é a seguinte: que acordo foi esse, exatamente? Qual o conteúdo da suposta anuência americana? Quem deu a garantia, em que nível da cadeia de comando, com que contrapartidas e com que prazo de validade? Porque garantias não surgem do nada. Nenhum governo hospeda voluntariamente um fugitivo da justiça de outro país por altruísmo ou por simpatia pessoal. Há sempre uma equação. Há sempre algo que flui em alguma direção. E quando o acordo se desfaz, como neste caso se desfez de forma bastante espetacular, a pergunta natural é o que mudou na equação. O que tornou Ramagem mais útil detido do que solto? Quem precisava desse sinal dado ao Brasil, e por quê agora?
O timing é a parte mais interessante do episódio para quem gosta de rastrear motivações. Cinco meses de silêncio relativo, cinco meses de conforto aparente, cinco meses em que o arranjo funcionou como prometido, e então, sem aviso prévio perceptível ao público, a máquina muda de marcha. Isso não é arbitrariedade burocrática. O ICE não acorda numa segunda-feira e decide aleatoriamente prender alguém de quem estava ciente há meses. Existe pressão política por trás de qualquer operação com essa visibilidade, e pressão política tem endereço, tem telefone e, com alguma paciência investigativa, tem nome. O que o governo brasileiro ofereceu ou prometeu nas semanas que antecederam a detenção é a pergunta que jornalistas sérios deveriam estar respondendo em vez de se contentar com a versão protocolar.
O que este episódio revela, no fundo, é a natureza da relação entre o indivíduo e o Estado em toda sua crueza pedagógica. Ramagem passou a vida dentro do aparelho, conheceu suas entranhas, participou de suas operações mais sensíveis, e ainda assim cometeu o erro elementar de acreditar que sua utilidade passada o protegia no presente. O Estado não tem memória afetiva. O Estado tem interesses correntes. O servente que ontem era indispensável é hoje um problema logístico a ser resolvido da maneira mais conveniente para os que ainda estão dentro. A história está repleta de homens que ajudaram a construir o calabouço e descobriram, tarde demais, que a porta girava nos dois sentidos. A diferença entre eles e Ramagem é apenas geográfica e cronológica.
Resta ao observador externo a ironia melancólica de ver alguém que presumably conhecia as regras do jogo ser surpreendido pelas regras do jogo. Não há como ter pena de quem sabia exatamente o que estava fazendo quando estava do lado de dentro, mas também não há como deixar de notar que a cena toda funciona como uma aula comprimida sobre a natureza do poder: ele não faz amigos, apenas sócios temporários com prazos de validade não informados.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.