Alexandre Ramagem foi preso pelo serviço de imigração americano nesta segunda-feira, 13 de abril. Esse é o fato. O ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, ex-deputado federal, homem que por anos operou os aparelhos de vigilância, escuta e contrainformação do Estado brasileiro, estava em território estrangeiro de forma irregular depois de ter deixado o Brasil clandestinamente, antes que o julgamento que o condenou por suposta trama golpista chegasse ao fim. Um homem do aparato de segurança nacional, especialista em rastrear pessoas que não querem ser encontradas, não conseguiu se tornar uma delas. Se a situação não fosse tragicômica, seria apenas trágica.
Mas vamos com calma, porque a pressa é inimiga da análise. Existe aqui uma contradição que merece ser esticada até que os fios apareçam. Ramagem não é um dissidente perseguido por um regime totalitário que o odeia por suas ideias. É um ex-quadro do próprio Estado, alguém que ascendeu dentro do aparato e que, enquanto serviu a quem lhe convinha, usufruiu de todos os privilégios que o monopólio da violência organizada distribui aos seus funcionários mais leais. A inteligência estatal que ele ajudou a construir e operar não tem dono permanente. Tem inquilinos temporários. E o contrato de locação vence quando o poder muda de mão. Essa lição, simples como um silogismo, parece não ter chegado a tempo.
Siga o dinheiro, e você sempre chega ao nó. Ramagem fugiu de quê, exatamente? De uma condenação que ele alega ser política. Pode ser. Mas fugiu para onde, com o quê, e com a ajuda de quem? Ninguém atravessa fronteiras clandestinamente sem logística, sem recursos, sem uma rede de apoio que tem interesse em mantê-lo vivo e calado, ou vivo e útil. A fuga clandestina de um ex-chefe de inteligência não é um homem desesperado comprando passagem na boca do caixa. É uma operação. E operações custam dinheiro. De onde veio esse dinheiro é uma pergunta que a mídia oficial vai formular com o mesmo entusiasmo com que formula qualquer pergunta inconveniente ao campo que hoje governa, ou seja, nunca.
Do outro lado do balcão, quem lucra com essa prisão? O governo brasileiro, que tem interesse em exibir a captura de um aliado de Bolsonaro como evidência de que o golpe foi real, o perigo foi real e a repressão é justa. A narrativa do golpismo derrotado precisa de rostos. Ramagem é um rosto conveniente. O ICE, por sua vez, não prende ex-diretores de agências de inteligência estrangeiras por gentileza. Há comunicação diplomática, há pedido formal, há negociação. Significa que Brasília pediu e Washington atendeu. Em que moeda foi pago esse favor é outra questão que o noticiário vai enterrar com sofreguidão.
E aqui chega a parte que ninguém gosta de ouvir mas que a lógica não permite ignorar: o problema não é Ramagem. O problema é a máquina que ele ajudou a operar e que agora o devora. Toda estrutura de poder suficientemente grande e suficientemente opaca acaba comendo seus próprios construtores. Foi assim em Moscou nos anos trinta, foi assim em Pequim nos anos sessenta, foi assim em cada burocracia que cresceu além do ponto em que qualquer indivíduo consegue controlá-la. O servidor fiel do Estado que descobre, tarde demais, que o Estado não tem amigos, só usa. Ramagem não é o herói nem o vilão desta história. É o personagem que ilustra a moral: quem constrói a jaula não escolhe quando sai dela.
No fim, o que a imprensa vai celebrar como vitória da democracia é, na sua essência, mais um episódio de um Estado capturando um indivíduo que lhe escapou. A questão de fundo, a que ninguém vai responder porque ninguém vai perguntar, continua em aberto: quem pagou a fuga, quem pagou a prisão, e quem, no fim das contas, vai pagar a conta política que os dois lados dessa batalha estão acumulando, com juros, sobre as costas do contribuinte brasileiro.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.