Dois dias. Quarenta e oito horas. O tempo que um homem condenado a dezesseis anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil precisou esperar nos Estados Unidos para que as autoridades americanas olhassem o processo, coçassem o queixo e abrissem a porta. Alexandre Ramagem foi preso pelo ICE, o serviço de imigração que não costuma ser gentil com ninguém, e saiu andando antes que o café da segunda manhã esfriasse. A pergunta que se impõe não é por que os americanos o soltaram, mas por que diabos o prenderiam a sério com base numa condenação que, vista de fora, cheira exatamente ao que é: um tribunal político operando como tribunal criminal.
O STF condenou Ramagem por "tentativa de golpe de Estado" e "organização criminosa". Dezesseis anos. Palavras graves, pena pesada, manchetes solenes. Mas a solenidade se desfaz quando se examina o que de fato aconteceu. Nenhum tanque rolou. Nenhum palácio foi tomado. Nenhum tiro foi disparado contra autoridade constituída. O que houve foi uma confusão de rua, um carnaval de baderneiros sem liderança operacional, e um punhado de ex-assessores e ex-deputados que, segundo a narrativa oficial, teriam arquitetado a derrubada de um governo com a sofisticação estratégica de quem planeja churrasco de condomínio. Isso não é defesa de Ramagem nem de ninguém. É constatação de fato. Quando a pena é desproporcional ao ato, o que está em jogo não é justiça. É mensagem.
E a mensagem foi recebida, sim, mas não como Brasília esperava. O sistema americano de imigração e justiça opera com uma lógica fria: há tratado de extradição? O crime é reconhecido na jurisdição local? A condenação foi proferida com devido processo ou com motivação política? Quando a resposta à terceira pergunta levanta dúvidas, o sujeito sai pela porta da frente. É o que aconteceu. Os Estados Unidos não precisaram fazer nenhuma declaração grandiosa sobre a qualidade da democracia brasileira. Bastou soltar o homem em dois dias. O gesto silencioso é mais eloquente que qualquer nota diplomática. É o equivalente institucional de devolver um prato dizendo que a comida não estava boa.
O curioso, e revelador, é o comportamento da imprensa brasileira diante do episódio. A prisão pelo ICE foi manchete com fogos de artifício: "Justiça alcança foragido!". A soltura, dois dias depois, saiu em notas tímidas de rodapé, quando saiu. O jornalismo que vibra com a captura e sussurra com a libertação não está informando. Está torcendo. E torcida organizada com crachá de imprensa é o sintoma mais evidente de que algo apodreceu na república. Quando o correspondente vira claque do tribunal, o leitor fica sem ninguém que lhe conte o que de fato está acontecendo.
Voltemos ao princípio: quem paga e quem recebe? O contribuinte brasileiro pagou e continua pagando por uma estrutura judicial que montou um julgamento televisionado com ares de Nuremberg tropical. Os ministros receberam o capital político de parecerem guardiões da democracia. Ramagem pagou com a condenação, a fuga, a prisão breve. Mas quem realmente recebeu a conta foi a credibilidade institucional do Brasil, que agora está depositada num banco onde ninguém mais faz saque. Um país cujas condenações são ignoradas em 48 horas por uma potência estrangeira não é um país com justiça severa. É um país com justiça que só funciona dentro das próprias fronteiras, o que, convenhamos, é a definição exata de arbitrariedade doméstica. O STF quis mostrar ao mundo que punia golpistas. O mundo olhou, agradeceu, e devolveu o "golpista" ao sol da Flórida. Fim do espetáculo.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.