O fato nu e cru é este: Alexandre Ramagem, ex-deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, o sujeito que já teve acesso aos segredos mais bem guardados da República, foi detido numa prisão americana em Orlando por questões migratórias. Ficou preso de segunda a quarta-feira. Saiu. A Polícia Federal confirmou. E o Brasil, como de costume, fingiu que isso é normal. Não é normal. Um ex-chefe de inteligência de um país soberano ser recolhido como imigrante irregular numa cidade da Flórida é o tipo de humilhação que, em qualquer nação que se leve a sério, provocaria ao menos um pedido formal de explicações. Aqui, virou nota de rodapé.

Observe a ironia que a realidade oferece de graça, sem precisar de roteirista. Ramagem construiu carreira no aparato de segurança do Estado brasileiro. Foi delegado da Polícia Federal, ocupou o topo da ABIN, teve nas mãos o aparelho que monitora, gramposeia, investiga e, quando convém, persegue. Era o homem que sabia demais, o guardião das gavetas que ninguém quer abrir. E de repente, num aeroporto da Flórida, esse mesmo homem se viu do outro lado do balcão: não como autoridade, mas como suspeito; não como quem pede documentos, mas como quem não tem os documentos certos. Há uma justiça poética nisso que nenhum tribunal terrestre seria capaz de proferir. O Estado americano fez com Ramagem exatamente o que todo Estado faz com qualquer cidadão comum quando decide que é hora de mostrar quem manda: trancou a porta e jogou a chave no bolso da burocracia.

A pergunta que ninguém na imprensa brasileira parece disposto a fazer é a mais óbvia de todas: o que exatamente um ex-deputado e ex-diretor de inteligência estava fazendo em Orlando em condições migratórias irregulares? Gente com esse currículo não viaja sem assessoria jurídica, sem passaporte em dia, sem visto carimbado e conferido. A não ser, é claro, que a viagem não fosse exatamente turismo. A não ser que houvesse razões para certa discrição. A não ser que a pressa de sair do Brasil fosse maior que o cuidado de entrar nos Estados Unidos pela porta da frente. Quando alguém que passou a vida inteira operando dentro do aparato estatal de repente tropeça numa questão burocrática elementar, a explicação mais generosa é incompetência, e a mais provável é que há algo debaixo do tapete que ainda não levantaram.

O silêncio dos aliados é, como sempre, o dado mais eloquente. Nenhuma nota indignada do partido. Nenhum correligionário em frente à embaixada americana exigindo respeito à soberania. Nenhum líder de bancada bradando na tribuna. O sujeito que há dois anos era apresentado como peça essencial do tabuleiro político simplesmente sumiu do radar de quem deveria defendê-lo. Em política, o abandono tem um nome técnico: cálculo de custo e benefício. E quando seus aliados calculam que o custo de te defender é maior que o benefício de te manter por perto, você descobre o que sempre deveria ter sabido, que lealdade em Brasília tem prazo de validade mais curto que iogurte em promoção.

O que esse episódio revela, no fundo, não é sobre Ramagem. É sobre a natureza do poder estatal, aqui ou em qualquer lugar. O mesmo aparato que um dia te dá crachá, escolta e acesso irrestrito a informações sigilosas é o mesmo que, no dia seguinte, te trata como número de protocolo numa delegacia de imigração. O Estado não tem amigos, tem funcionários. E funcionário descartado é lixo reciclável, útil só enquanto alguém acha que vale a pena separar do resto. Ramagem saiu da prisão em Orlando, mas a pergunta que fica é: para onde vai agora um homem que sabe demais num país onde saber demais é o tipo de doença que costuma ter cura espontânea e silenciosa? Quem bancou a viagem, quem pagou a fiança, quem costurou a soltura, e sobretudo, quem se beneficia de tê-lo longe do Brasil neste exato momento? Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.