O governador Ratinho Jr. resolveu encerrar o que o jornalismo político chama de "mistério" e que qualquer pessoa com um mínimo de cinismo saudável chamaria de teatro. Sandro Alex, deputado federal pelo PSD, é o nome ungido para disputar o governo do Paraná em 2026. O favorito até semana passada era Guto Silva, ex-secretário da Casa Civil, o homem que operava a engrenagem por dentro. Mas eis que a engrenagem cuspiu outro nome, e quem acompanha o funcionamento dessas máquinas sabe que a pergunta nunca é "quem é o mais competente?", e sim "quem garante que o arranjo sobreviva?".
Veja, o leitor precisa entender uma coisa sobre sucessões estaduais no Brasil: elas não são eleições, são transferências de custódia. O governador que sai não escolhe o mais preparado, o mais popular ou o mais honesto. Escolhe o que oferece a melhor garantia de que os contratos continuarão sendo renovados, de que as secretarias continuarão distribuindo cargos aos mesmos grupos, de que o organograma do poder real, aquele que nunca aparece no Diário Oficial, permanecerá intacto. É uma lógica feudal com verniz democrático. O suserano indica o vassalo de confiança, o povo comparece às urnas para carimbar o que já foi decidido em gabinete com ar-condicionado e café sem açúcar.
Sandro Alex não é um nome que surgiu do nada. É deputado federal, homem de partido, operador legislativo. Sabe onde estão os botões que liberam emendas, sabe como se negocia apoio de bancada, sabe o idioma que Brasília fala. E é exatamente isso que torna a escolha tão reveladora. Não se escolheu um gestor, escolheu-se um articulador. Não se premiou resultado, premiou-se lealdade ao sistema de alianças. Guto Silva, que fez o trabalho sujo da administração, que conhecia cada engrenagem da Casa Civil, foi preterido. A mensagem é cristalina: no jogo político brasileiro, quem opera a máquina é descartável; quem controla as alianças que alimentam a máquina, esse é indispensável.
E aqui entra a pergunta que ninguém no Paraná vai fazer em voz alta, mas que deveria estar estampada em outdoor: a quem serve essa continuidade? Porque quando um governador escolhe seu sucessor, o que ele está dizendo, em termos práticos, é que o eleitor não precisa se dar ao trabalho de pensar. A decisão já foi tomada. O cardápio já foi montado. Você, contribuinte paranaense, que paga impostos sobre tudo o que come, veste e respira, vai ao supermercado eleitoral e encontra nas prateleiras apenas o que o dono do mercado resolveu estocar. A "surpresa" da escolha de Sandro Alex é a surpresa de quem ainda confunde o rótulo da embalagem com o conteúdo do produto. O rótulo dizia Guto Silva; o produto sempre foi "quem o governador mandar".
O que se repete no Paraná é o que se repete em todo Estado brasileiro desde que este país resolveu chamar de democracia um sistema em que oligarquias regionais se revezam no poder como famílias italianas na Renascença. Muda o nome na faixa, permanece o CNPJ por trás. Os mesmos empreiteiros, os mesmos grupos de comunicação, os mesmos sindicatos patronais, as mesmas associações de classe que financiam campanha e depois aparecem na fila das concessões, das PPPs, dos incentivos fiscais que o cidadão comum jamais verá. Ratinho Jr. não está passando um bastão; está renovando um contrato de gestão com os verdadeiros acionistas do Estado do Paraná. E Sandro Alex, ao aceitar a indicação, não está se candidatando a governador; está assinando embaixo de um compromisso com credores que o eleitor sequer conhece.
A lição é sempre a mesma, repetida a cada ciclo eleitoral com a insistência de um relógio que ninguém quer ouvir: em política, não existe surpresa, existe falta de informação. Quem paga a conta da máquina pública é o trabalhador. Quem recebe os dividendos é quem controla a sucessão. O resto é coluna social.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.