Segunda-feira, primeiro de junho, e a fábrica de cenários já bateu o ponto. O instituto soltou o número, a redação soltou a manchete, o assessor soltou o tweet, e o eleitor, coitado, recebeu pronta a notícia de que faltam dois anos e meio para uma eleição cujo resultado, segundo a tabuinha mágica, já estaria praticamente definido entre quarenta e cinco e quarenta por cento. É de uma comicidade quase tocante. Antigamente o adivinho jogava búzios na areia e cobrava uma moeda; hoje liga para mil e duzentos celulares, chama de amostragem estratificada e vende o resultado para o jornal, que vende para o anunciante, que vende para você, leitor, embutido no preço do sabão em pó.

Convém perguntar, antes de qualquer coisa, quem paga a brincadeira. Pesquisa eleitoral não cai do céu, não nasce em horta orgânica, não brota do interesse desinteressado pela verdade. Alguém contrata, alguém financia, alguém encomenda a fotografia exatamente no ângulo que quer ver publicada. E o ângulo escolhido nunca é inocente. Divulgar em primeiro de junho de 2026, ou seja, com a eleição a uma distância sideral, serve para uma coisa muito específica, que é construir inevitabilidade. O número vira moldura, a moldura vira moldura mental, e quando a campanha começar de verdade o eleitor já estará condicionado a achar que aquilo ali é o estado natural das coisas, como se houvesse lei da gravidade política.

Há ainda o detalhe delicioso da escolha do adversário. Num passe de mágica, o segundo turno hipotético já vem com nome, sobrenome e CPF do oponente, devidamente ungido pela cabala estatística. Não se pergunta ao eleitor quem ele gostaria de ver na cédula; entrega-se o cardápio com dois pratos, ambos escolhidos pela cozinha, e pede-se que ele aponte qual prefere comer. É a velha técnica do ilusionista: forçar a carta que parece livre escolha. E o resultado da pesquisa, então, vira profecia autorrealizável, porque o financiador descobre cedo onde investir, o adversário inconveniente é tratado como inviável, e o eleitor descobre, sem ter pedido opinião a ninguém, que suas opções foram pré-aprovadas pelo comitê.

A lógica é simples e quem não enxerga é porque não quer. Se toda pesquisa custa dinheiro, e se todo dinheiro tem dono, e se todo dono tem interesse, então toda pesquisa tem interesse embutido. A conclusão não admite recurso. O que sobra de neutralidade nesse arranjo cabe num grão de arroz, e ainda assim com folga. O instituto vende o produto, a imprensa amplifica de graça, o partido beneficiado embolsa a narrativa, e o contribuinte assiste a tudo achando que está sendo informado, quando na verdade está sendo costurado. Cinco pontos de diferença, em junho de ano ímpar contado para trás, têm o mesmo valor preditivo de horóscopo de revista de salão de cabeleireiro, com a diferença de que o horóscopo é mais honesto, porque ninguém finge que tem método.

Os romanos tinham um costume curioso, o de consultar o voo das aves antes de qualquer batalha. Os áugures liam o céu, anunciavam o destino, e o general agia conforme o presságio. Com o tempo, descobriu-se que o áugure inteligente era aquele que dizia ao general o que o general queria ouvir, e por isso ficava na folha de pagamento. Pouca coisa mudou. Trocou-se a ave pelo telefone, o sacerdote pelo estatístico, o templo pelo estúdio com logo bonito, mas a função permanece intacta: legitimar antecipadamente o que o poder pretende fazer de qualquer maneira. Chamar isso de jornalismo é generoso; chamar de ciência é piada; chamar de informação ao cidadão é, francamente, uma ofensa à inteligência alheia.

Resta ao leitor a única atitude digna, que é rir. Rir do número, rir da manchete, rir do espanto fingido com que se anuncia, em junho, o que só se decidirá em outubro de 2026, depois de duzentas reviravoltas, três escândalos, uma crise cambial e dois inquéritos que ninguém ainda nem suspeita. A urna é o único instituto sério, e ela só atende em dia marcado. Tudo o que vem antes é entretenimento patrocinado, fumaça vendida como bússola, e quem leva a sério merece, no mínimo, a fatura no fim do mês, porque alguém está pagando essa conta, e esse alguém, no fim das contas, é sempre o mesmo otário de sempre.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.