Anote o roteiro porque ele se repete com a pontualidade de relógio suíço. Pega-se uma médica que ficou famosa não por salvar vidas, mas por sobreviver a um paredão, coloca-se um cenário com plantinha de plástico, escreve-se na vinheta a palavra doutor e está fundada mais uma cátedra de medicina pop, transmitida aos domingos de manhã, entre o café requentado e a missa pela televisão. A campeã do reality foi contratada para comandar atração de saúde na emissora, e o espectador, pobre coitado, é convidado a achar que diploma e popularidade são a mesma coisa só porque chegaram embrulhados no mesmo papel celofane.
Faça a pergunta que ninguém faz no horário em que o sofá ainda está morno. Quem paga essa brincadeira e quem recebe? Paga o anunciante de farmácia, de plano de saúde, de suplemento milagroso e de clínica estética que precisa de um rosto reconhecível para vender consulta como se vende sabonete. Recebe a emissora, que compra audiência barata vestida de credibilidade médica, e recebe a apresentadora, que monetiza um capital simbólico construído dentro de uma casa com câmeras nos banheiros. O telespectador, esse, paga a conta duas vezes: uma na mensalidade do convênio que repassa a publicidade ao preço final, outra na ilusão de que está sendo informado quando, na verdade, está sendo entretido.
Há aqui uma confusão deliberada entre duas categorias que deveriam morar em prédios diferentes. Uma coisa é ser médico, profissão que exige anos de estudo, plantão e responsabilidade civil. Outra coisa é ser celebridade, ofício que exige apenas câmera, iluminação e algum tipo de carisma fotogênico. A televisão aberta brasileira inventou uma terceira categoria, híbrida e monstruosa, em que o jaleco funciona como figurino e o estetoscópio como adereço de cena. Se a premissa do programa é que conselho médico vale pela autoridade de quem fala, e a autoridade de quem fala vem de ter ganhado um jogo de confinamento, a conclusão lógica é que o critério de verdade da emissora é o IBOPE, não o conhecimento. Honestidade seria mudar o nome do programa para Fala Famosa.
Não se trata de implicar com a profissional, que cumpre o papel que o mercado lhe oferece e faz muito bem em embolsar o cachê. Trata-se de perceber o arranjo. A indústria do entretenimento descobriu há tempos que vender produto disfarçado de informação rende mais que vender informação pura, porque a primeira escapa do filtro crítico do espectador. É a velha técnica de embrulhar o remédio no pedaço de carne para que o cachorro engula sem perceber. Só que aqui o remédio é publicidade, o cachorro é o público, e o pedaço de carne é a suposta autoridade científica de quem está no estúdio.
Repare como a engrenagem é elegante na sua desonestidade. A emissora finge que oferece serviço de utilidade pública, a apresentadora finge que está praticando medicina, o anunciante finge que patrocina ciência, o regulador finge que não vê, e o espectador finge que aprendeu alguma coisa entre um intervalo comercial e outro. Cinco fingimentos sustentando uma única transação comercial, todos lucrando, exceto quem ligou a televisão achando que ia receber orientação de saúde. Quando todo mundo concorda que o arranjo é normal, é porque o arranjo é especialmente lucrativo para quem importa, e perfeitamente prejudicial para quem não importa.
O domingo de manhã, esse altar dos crédulos, ganha mais um sacerdote de batina branca para abençoar produtos com palavras técnicas. Daqui a seis meses haverá linha de cosméticos, livro de autoajuda nutricional, podcast patrocinado por marca de vitamina e, com sorte, uma palestra motivacional em convenção de plano de saúde. O ciclo se fechará e ninguém perguntará o óbvio que, repetido, dói menos. Quem paga e quem recebe? Paga você, recebem eles. Sempre foi assim, e enquanto a pergunta não voltar a ser feita em voz alta, continuará sendo.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.