Quase seis mil empresas brasileiras estão, neste momento, em processo de recuperação judicial, número que cresceu 24,3% em relação ao quarto trimestre de 2024. O agronegócio, setor que o Brasil insiste em apresentar ao mundo como sua grande vitrine de competência, registrou alta de 56% nos pedidos. Cinquenta e seis por cento. Em menos de um ano. Não estamos falando de estatística abstrata, estamos falando de fazendas, de galpões, de famílias, de décadas de trabalho acumulado sendo trituradas por uma máquina que não produz nada além de regulação e tributo. O fato concreto está posto. A pergunta que ninguém na grande imprensa tem coragem de formular com precisão é esta: quem fabricou esta destruição?

A resposta está no número que o Banco Central exibe com a solenidade de quem pendurou um troféu na parede: 15% ao ano de taxa básica de juros. A Selic a 15% não é uma força da natureza, não é uma tempestade que veio do Atlântico sem aviso, é uma decisão tomada por homens nomeados por outros homens que respondem a interesses muito específicos e muito bem documentados. O empresário que tomou crédito para ampliar capacidade produtiva, comprar máquina, contratar funcionário, apostou num cálculo que o Estado tornou inviável retroativamente, mudando as regras no meio do jogo com a desenvoltura de quem acredita que a propriedade privada é uma concessão revogável do poder público. E é exatamente isso que o Estado brasileiro acredita, diga-se.

Existe um mecanismo simples que os manuais de qualquer universidade decente descrevem com clareza, e que a classe política brasileira finge não ter lido: quando o custo do dinheiro sobe além de certo limiar, o capital para de fluir para a produção e começa a correr para o título público. Por quê? Porque o título público paga 15% sem risco, sem funcionário, sem nota fiscal, sem INSS, sem FGTS, sem fiscalização da Anvisa, sem alvará da prefeitura, sem nada. O investidor racional, e investidor racional é tautologia, prefere emprestar dinheiro ao governo a colocá-lo em risco numa empresa que vai concorrer com a burocracia, com o câmbio volátil e com os próprios juros que o governo paga ao título. O resultado é o que se vê: seis mil empresas em linha vermelha e uma fila de aplicadores felicíssimos recebendo juros pagos com o imposto que a empresa falida já não consegue mais recolher. O ciclo é perfeito na sua perversidade.

O agronegócio merece atenção especial, porque a alta de 56% nos pedidos de recuperação neste setor revela algo que a narrativa oficial prefere encobrir com fotografias de soja e elogios na COP. O produtor rural brasileiro carrega sobre os ombros um custo de produção entre os maiores do planeta, financia sua própria infraestrutura porque o Estado não a provê, paga imposto sobre imposto na cadeia de insumos e ainda assim consegue abastecer meio mundo. Quando mesmo esse setor, o mais resiliente e produtivo da economia nacional, começa a quebrar em escala recorde, não é o setor que fracassou. É a estrutura tributária, creditícia e regulatória que chegou ao limite de quanto consegue extrair antes de matar o hospedeiro. Os impérios que taxaram além da capacidade de seus contribuintes aprenderam essa lição de forma bastante desagradável ao longo da história. O Brasil parece determinado a não poupar essa experiência.

O que se chama de "política monetária responsável" é, na prática, uma transferência colossal de riqueza do setor produtivo para os detentores de papéis do Tesouro, processo que beneficia uma casta financeira e o próprio governo, que rola sua dívida enquanto o resto da economia sangra. A empresa que fecha não vota, não faz lobby, não tem bancada no Congresso. O banco que carrega o título público tem tudo isso e mais um pouco. Não é conspiracionismo, é geometria do poder: os incentivos estão todos alinhados para que o capital fuja da produção em direção ao rentismo, e quem paga a conta é o trabalhador demitido, o fornecedor caloteado e o município que perde o ICMS. O Estado, como sempre, sai ileso, prontos para o próximo programa de "estímulo ao emprego" financiado com mais dívida e mais imposto.

O recorde histórico de recuperações judiciais não é uma tragédia que aconteceu ao Brasil. É uma política que foi aplicada ao Brasil, com endereço, assinatura e CPF. Quando um número bate recorde, significa que alguma coisa, em algum lugar, foi feita de forma sistematicamente errada durante tempo suficiente para que o estrago se acumulasse. Seis mil empresas em crise simultânea não é azar coletivo, é consequência lógica e previsível de juros predatórios, carga tributária de país nórdico com serviço público de país colapsado, e um Estado que aprendeu a sobreviver muito bem da falência daqueles que sustenta fingindo proteger. A pena de morte do empreendedor brasileiro não tem algoz com capuz, tem processo administrativo, tem DAS, tem DARF e tem taxa Selic. A diferença é que a guilhotina, ao menos, era rápida.

Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.