Anunciaram com pompa que uma rede social chinesa, a RedNote, comprou os direitos de transmissão da Copa do Mundo junto ao China Media Group e vai exibir os jogos de graça. O brasileiro, criatura treinada décadas a fio para confundir gratuidade com bondade, já bate palmas antes de perguntar o óbvio: se ninguém paga ingresso, quem está custeando o estádio? Direitos de transmissão de Copa do Mundo não caem do céu, não brotam em horta comunitária, não são distribuídos por freira em dia de quermesse. Custam centenas de milhões de dólares, e alguém, em algum lugar, assinou o cheque com sorriso de quem sabe que o cheque vai voltar multiplicado.
O China Media Group, convém lembrar para os distraídos, não é uma cooperativa de jornalistas independentes reunidos num escritório aconchegante de Xangai. É o conglomerado estatal de mídia do Partido Comunista Chinês, braço operacional da propaganda do regime, subordinado direto ao Departamento Central de Propaganda. Quando esse senhor vende direitos de exibição para uma plataforma que por acaso quer conquistar o mercado brasileiro, não estamos diante de transação comercial entre privados, mas de uma operação geopolítica fantasiada de generosidade futebolística. O capital, neste caso, tem sotaque, e o sotaque tem ordens vindas de muito longe daqui.
A pergunta que ninguém faz, porque foi ensinado a não fazer, é simples: o que a RedNote ganha oferecendo de graça aquilo que a Globo cobra caro? A resposta cabe num parágrafo de manual de marketing digital. Ganha os seus dados, seus hábitos de consumo, sua rede de contatos, seu padrão de sono, o horário em que você acorda para ver o jogo, o time pelo qual torce, as marcas que você comenta, os amigos que você convida para assistir junto. Ganha, sobretudo, o privilégio de moldar discretamente o que você acha que pensou sozinho, porque algoritmo treinado em Pequim não é instrumento neutro, é arquitetura de comportamento desenhada por gente que estudou ao pé da letra a velha lição imperial: quem controla a narrativa controla o povo, e quem entretém o povo controla a narrativa.
O paralelo histórico é constrangedor de tão exato. Roma antiga descobriu que o cidadão satisfeito com pão e circo não pergunta sobre o império, não fiscaliza o senador, não exige conta do imposto. Trocava-se liberdade política por espetáculo gratuito, e o povo aplaudia o gladiador sem perceber que a arena era a coleira. Mudou o figurino, mudou o idioma do imperador, mas a engenharia é a mesma: oferecer entretenimento de graça para que ninguém repare nas correntes invisíveis que estão sendo soldadas no pulso. A diferença é que agora a coleira tem wi-fi e o coliseu cabe no bolso.
Há ainda o detalhe saboroso de que enquanto o Ocidente discute com seriedade canina se deve banir o TikTok, proteger crianças de aplicativos predatórios e auditar algoritmos estrangeiros, o Brasil estende o tapete vermelho para que mais uma plataforma chinesa entre pela porta da frente trazendo Neymar como cavalo de Troia. Os mesmos políticos que vivem clamando por soberania nacional quando o assunto é taxar empresa americana ficam mudos, contemplativos, quase reverentes, quando a bandeira do invasor cultural é vermelha com cinco estrelas amarelas. Coincidência improvável, oportunismo previsível, ou apenas a velha regra de que quem grita contra um império costuma estar a soldo do outro.
No fim das contas, a equação é singela e por isso ofensiva à inteligência do leitor médio que prefere a versão complicada: ninguém oferece Copa do Mundo de graça por amor ao esporte bretão. Oferece porque calculou, friamente, que o valor do que vai extrair de você supera com folga o valor do que está pagando à FIFA. Você não é cliente, não é espectador, não é torcedor; você é a matéria-prima de uma indústria que ainda nem foi inteiramente catalogada, e está entregando sua biografia digital em troca de noventa minutos de bola rolando. Aplauda, se quiser. Mas não diga depois que ninguém avisou.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.