O IBGE soltou o foguete: os registros de biodiversidade avançaram. Traduzindo do dialeto burocrático para o português dos mortais, alguém em Brasília gastou um caminhão de dinheiro alheio para contar borboleta, catalogar besouro e desenhar mapinha colorido de bromélia. E vem a público, de peito estufado, anunciar que a "mobilização de dados melhorou", embora "permaneçam limitações estruturais". É o velho truque do funcionário que pede aumento mostrando o relatório que ele mesmo inventou: olha como avancei, agora me dê mais verba para avançar o que ainda falta avançar.

A pergunta que ninguém faz na coletiva, porque seria deselegante quebrar o encanto da ciência subsidiada, é simples e devastadora: quem paga essa conta e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus, recolhido na fonte antes mesmo de ver a cor do salário. Recebem os institutos, as fundações, as ONGs ambientalistas conveniadas, os pesquisadores de carreira protegida, as conferências internacionais com diária em dólar e a indústria global do alarmismo verde, que precisa de números brasileiros para alimentar suas planilhas em Genebra. O dado da onça-pintada, perdoem a franqueza, vira passagem de avião em classe executiva.

Existe um silogismo que o cidadão comum entende e o tecnocrata finge ignorar. Todo orçamento público sai do bolso de alguém. Esse alguém não foi consultado sobre suas prioridades. Logo, toda dotação para "mobilização de dados de biodiversidade" é, na prática, um confisco direcionado pelo gosto estético de uma casta. Se o catálogo de espécies fosse tão valioso quanto dizem, haveria fila de empresas privadas, museus, universidades pagas e fundações voluntárias disputando o privilégio de financiá-lo. Não há. Há somente o cano grosso do Tesouro, jorrando recurso compulsório para uma agenda que o pagador jamais aprovaria em referendo.

O argumento da "limitação estrutural" merece um capítulo à parte, porque é a obra-prima da retórica estatal. Estrutura, aqui, significa: ainda não temos prédio suficiente, cargo suficiente, comissionado suficiente, supercomputador suficiente. A escassez é sempre apresentada como diagnóstico, nunca como sintoma. Ninguém pergunta se o problema não é justamente o monopólio: entregue a contagem da biodiversidade ao mercado, às universidades autônomas, aos clubes de naturalistas, aos próprios produtores rurais que conhecem cada palmo da terra, e em cinco anos haveria dez vezes mais dado pela metade do preço. Mas não, a estrutura precisa permanecer estrutural, porque é dela que vive a estrutura.

Há ainda o detalhe sórdido, jamais noticiado, de que esse acervo de informações não é neutro. Cada coordenada de espécie ameaçada vira, no minuto seguinte, instrumento de embargo, multa, criação de unidade de conservação, expropriação branca de propriedade rural, trava para mineração legal, justificativa para tratado internacional que amarra o país. O dado parece inocente, o usuário do dado nunca é. O camponês que descobre, da noite para o dia, que seu pasto virou corredor ecológico de um sapo recém-catalogado, esse sim entende, na pele, o que significa "avanço nos registros de biodiversidade". Avançou em cima dele.

E o leitor, no fim de tudo, fica com a velha sensação de quem foi vendido como mercadoria sem saber. Aplaudem o relatório, premiam os técnicos, brindam com vinho português pago em real desvalorizado, e a manchete diz que o Brasil progrediu. Progrediu para quem? Para o orçamento da repartição, para o currículo do diretor, para a conferência da ONU, para o consultor estrangeiro que vem ensinar como contar a fauna que nossos avós já contavam de graça. O resto é paisagem, e paisagem, como se sabe, não vota, não reclama e, sobretudo, continua pagando imposto.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.