O brasileiro acordou descobrindo que a fada madrinha do carro elétrico tem CNPJ, lobby em Brasília e uma conta corrente bem gorda esperando depósito. Durante anos venderam o veículo eletrificado como passaporte para o paraíso: sem IPVA em alguns estados, isenção de rodízio, estacionamento preferencial, aquele cafuné regulatório que faz qualquer consumidor achar que ganhou na loteria. Pois bem, a lua de mel acabou. A regulamentação que se desenha para 2026 transforma o carrinho silencioso numa máquina de extrair tributo, e o motorista que comprou achando que fugiu do posto de gasolina vai descobrir, com a delicadeza de uma porretada, que o fisco apenas mudou de fantasia.
O truque é antigo e funciona desde que o primeiro coletor de impostos descobriu que é mais fácil tosquiar a ovelha do que matá-la. Primeiro se cria o incentivo, atrai-se o rebanho, deixa-se a indústria erguer fábrica, montar concessionária, fidelizar consumidor. Quando a massa crítica está formada, quando o sujeito já hipotecou a casa para comprar o tal SUV elétrico de noventa mil reais, aí sim entram em cena os iluminados do parlamento com a cara mais lavada do mundo, anunciando que, infelizmente, é preciso compensar a perda de arrecadação da gasolina. Como se o dinheiro fosse deles, como se a perda fosse uma tragédia nacional, como se o cidadão tivesse alguma obrigação ontológica de financiar o desperdício alheio.
Siga o rastro do dinheiro e a fantasia ecológica desmonta sozinha. As montadoras chinesas chegaram com preço agressivo e os fabricantes nacionais correram para o ouvido do governo pedindo proteção, batizada de imposto de importação progressivo, que já saltou e continua subindo. Resultado prático: o carro que custaria cinquenta mil chega ao consumidor por oitenta, e a diferença vai para o caixa do Tesouro e para a margem de lucro de quem não quis competir. Chamam isso de política industrial. O nome correto, em qualquer dicionário honesto, é cartel com alvará oficial. O consumidor paga a conta da ineficiência, e ainda tem que aplaudir, porque vendeu-se a ideia de que proteger emprego nacional é nobreza.
Vem aí o pedágio por quilômetro rodado, a famigerada tarifa de recarga em via pública atrelada a concessões com tarifas reguladas, a cobrança de ICMS sobre energia elétrica destinada a veículos com alíquota diferenciada, e a discussão, já madura nos gabinetes, de um IPVA proporcional ao peso do veículo, justamente porque carro elétrico é mais pesado que combustão. Ou seja, a mesma característica técnica que era virtude no folheto vira pretexto de imposto na lei. Em paralelo, a infraestrutura de carregamento depende de licenças municipais, normas da concessionária de energia, anuência do corpo de bombeiros e de uma dúzia de carimbos que transformam um simples poste com tomada num projeto digno de obra do PAC. Quem ganha com isso? Quem cobra a taxa, quem emite a licença, quem vende o laudo, quem advoga o processo. Quem perde? O sujeito que só queria ir trabalhar.
O argumento ambiental, repetido com a fé do converso recente, esconde a parte feia da equação. A energia que abastece o veículo no Brasil vem majoritariamente de hidrelétricas, é verdade, mas a margem de crescimento da matriz nos próximos anos será térmica, porque ninguém quer aprovar nova hidrelétrica e o vento e o sol não dão conta sozinhos. Bateria envolve lítio, cobalto, níquel, mineração pesada em países onde a palavra meio ambiente é piada interna. O ciclo completo, da mina ao desmonte, é tudo menos limpo. Mas a narrativa precisa do herói imaculado, então fingimos que a sujeira terceirizada não existe, e seguimos comprando indulgências modernas em forma de adesivo verde no para-choque. É a versão laica do dízimo, com a vantagem de que o pecador dirige um automóvel novo.
O conselho prático, para quem não quer ser o trouxa do próximo ciclo, é simples e impopular: leia a letra miúda antes de assinar, calcule o custo total ao longo de dez anos incluindo tributos que ainda não existem mas certamente virão, desconfie de toda isenção temporária porque temporário em política tributária é eufemismo para armadilha, e jamais acredite que o Estado abriu mão de uma fonte de arrecadação por amor à natureza. O Estado não ama nada. O Estado cobra. O carro elétrico não é o problema, a tecnologia é fantástica e o futuro provavelmente é dela. O problema é a mão pesada que já está estendida no bolso do motorista, sorrindo com a cara mais ecológica do mundo, enquanto retira a carteira com a precisão de um batedor de carteiras profissional. Quem paga, paga calado. Quem recebe, agradece em silêncio. E a roda gira.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.