Há algo de comicamente sublime na manchete: Londres envia embarcações a Ormuz para proteger embarcações da marinha britânica. Leia de novo, com calma. A frota foi enviada para escoltar a frota. É o Estado fazendo segurança do Estado, com dinheiro arrancado do bolso de quem nunca pôs os pés num navio de guerra e jamais lucrará um centavo com o petróleo que passa por aquele corredor de água. O súdito de Manchester, que não consegue marcar consulta no NHS sem esperar seis meses, agora descobre que sua libra esterlina virou combustível de fragata em águas persas. Aplausos.

Convém olhar o mapa antes de engolir o discurso. O Estreito de Ormuz é a artéria por onde escorre cerca de um quinto do petróleo mundial, e quem opera ali não é a viúva de Liverpool nem o aposentado de Birmingham, mas um cartel muito específico de petroleiras, traders de commodities, seguradoras marítimas de Londres e fabricantes de armamento que vivem do espasmo geopolítico. Quando a tensão sobe, o Lloyd's reajusta prêmios, a BP recalcula margens, a BAE Systems atualiza pedidos. O risco é socializado no contracheque do trabalhador, o lucro é privatizado nos balanços de quem já tem iate. Velho truque, sempre repaginado.

O argumento oficial vem embrulhado em papel celofane patriótico: defender o comércio livre, garantir as rotas, conter a ameaça iraniana. Pois bem, apliquemos a régua. Se o objetivo é proteger comércio privado, que o comércio privado pague suas próprias escoltas, contrate seguranças, banque o risco do negócio, como qualquer transportadora honesta faz na BR-116. Não é o que ocorre. O custo da operação militar sai do tesouro, ou seja, do imposto, e o imposto é aquela coisa engraçada que ninguém entrega voluntariamente, só sob ameaça de cadeia. Chame pelo nome correto e o encanto da retórica se desfaz.

Há ainda o segundo ato da peça, em que Washington exige uma proposta de Teerã, como senhor feudal cobrando vassalagem. O roteiro é antigo e tem rendido bem desde os tempos das canhoneiras vitorianas anchoradas no Yangtzé. Inventa-se um inimigo formidável, distribui-se contrato bilionário para o complexo industrial-militar, fabrica-se consenso através da imprensa amestrada, e o cidadão termina convencido de que sua segurança depende de um destróier a oito mil quilômetros de casa. Se o Irã é fraco, não justifica a frota. Se é forte, a frota não basta. A premissa não fecha, mas o caixa, ah, o caixa fecha lindamente.

A pergunta que ninguém na BBC fará, e que o leitor honesto deve fazer sozinho diante do espelho, é simples e brutal: a quem aproveita esta encenação? Aproveita ao fabricante de mísseis, que vê sua ação subir no pregão de Londres. Aproveita ao think tank financiado por petroleira, que produzirá dossiês alarmantes na quinta-feira. Aproveita ao político em queda nas pesquisas, que descobre na bandeira tremulante uma muleta para o segundo turno. Não aproveita, jamais aproveitou, ao contribuinte, que é o único personagem obrigatoriamente presente em toda guerra, presente como pagador, nunca como beneficiário. Os impérios mudam de bandeira, de língua e de século, mas o esquema é sempre o mesmo: socialismo do prejuízo, capitalismo do lucro, e uma narrativa solene para que o trouxa engula tudo de boca aberta.

Quem paga a fatura, no fim do expediente, é o mesmo de sempre, o homem comum que acorda às seis da manhã para trabalhar e financiar, sem saber e sem consentir, a aventura naval de uma elite que sequer sabe pronunciar o nome da rua onde ele mora. Quem recebe é o mesmo de sempre também. E enquanto a pergunta certa não for feita em voz alta, em mesa de bar, em coluna de jornal, em conversa de táxi, o teatro continuará em cartaz, com plateia cativa e ingresso descontado direto na folha de pagamento.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.