Um milhão. Esse é o número de mulheres que bateram à porta do Estado em 2025 pedindo para não morrer, pedindo para não apanhar de novo, pedindo para dormir sem o medo de acordar com a cara inchada. Um crescimento de 17% em relação ao ano anterior, num país que tem ministério dedicado, secretaria dedicada, delegacia dedicada, hotline dedicada, patrulha dedicada, campanha publicitária dedicada, observatório dedicado, comitê interministerial dedicado e, aparentemente, zero resultado dedicado. A conta é simples e brutal: cada nova estrutura burocrática criada para combater a violência veio acompanhada de mais violência, não menos. Quando o remédio engorda e a doença também, é hora de parar de confiar no farmacêutico.

Siga o cheque. O orçamento das pastas que tratam de direitos da mulher subiu ano após ano, engoliu convênios, paralelizou ONGs, empregou militantes, financiou cursos, patrocinou seminários com coffee break de hotel cinco estrelas e produziu, em troca, relatórios em PDF que ninguém lê e cartilhas em papel reciclado que ninguém abre. Toda essa engenharia existe porque o problema existe, e é do interesse profissional dessa engenharia que o problema continue existindo. Um hospital que cura perde pacientes. Um ministério que resolve perde cargos comissionados. A indústria da compaixão estatal tem incentivos perversos e mercadoria cativa, que é a dor alheia embalada em powerpoint.

Enquanto isso, a cidadã comum, a mãe de dois filhos que mora num bairro onde a viatura aparece três horas depois da chamada, é sistematicamente convencida de que se defender é coisa de bárbaro, que andar armada é coisa de miliciano, que aprender a atirar é fetiche masculino tóxico, que o vizinho que poderia socorrer deve primeiro preencher um formulário, que a arma dentro de casa vai acabar matando a própria dona. Desarme-se, confie no Estado, espere o 190, reze para o agressor ter pressa. Esse é o contrato que lhe venderam. Depois dele assinado, contabiliza-se um milhão de violações no ano e alguém ainda tem a cara de pau de apresentar a mesma receita em volume dobrado, como se a causa do fogo fosse a falta de gasolina.

A violência doméstica acontece dentro de quatro paredes, no horário em que a patrulha está em outra esquina, pelas mãos de um sujeito que conhece a vítima, que sabe os horários dela, que tem chave da casa dela, que divide conta bancária com ela. Nenhuma lei federal, nenhum slogan de campanha, nenhuma palestra institucional entra naquela cozinha às duas da manhã. Quem entra é o punho do marido, do namorado, do ex, do pai. E quem poderia defender, se fosse socialmente autorizada a defender-se, é justamente quem foi convencida de que defesa é sinônimo de selvageria. A propaganda funcionou. A estatística também. Nenhuma delas funciona para a mulher deitada no chão.

A faixa etária que concentra os casos, dos 26 aos 44 anos, é a faixa economicamente produtiva, a mulher que trabalha, que paga imposto, que sustenta filho, que mantém a casa de pé. É ela que banca, via tributo, todo o aparato que deveria protegê-la e não protege. Ela é, ao mesmo tempo, financiadora e vítima do sistema. Paga duas vezes: na folha de pagamento, todo mês, e na pele, quando o sistema falha. Se isso fosse uma empresa privada, teria ido à falência em três trimestres. Como é Estado, recebe aumento de orçamento no quarto. Privilégio de monopolista: cobrar pelo serviço e não entregar o serviço, sem concorrência, sem auditoria real, sem consequência.

A saída honesta exigiria coragem que a classe política não tem, porque cortaria na própria carne. Exigiria devolver à cidadã a plena capacidade de legítima defesa, descomplicar o porte para quem tem medida protetiva, responsabilizar criminalmente juiz que arquiva denúncia grave, tratar agressor reincidente como o que ele é, e não como vítima de um sistema que falhou com ele também. Exigiria, acima de tudo, admitir que a solução não está em mais Estado, porque foi o excesso de promessas do Estado que desarmou a vítima, material e espiritualmente. Mas admitir isso fecharia ministério, demitiria assessor, esvaziaria congresso. Mais fácil publicar o próximo relatório em janeiro anunciando que os números pioraram de novo, e pedir mais verba.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.