O anúncio chega com aquele ar festivo de quem distribui esmola na porta da igreja: Remo contra Palmeiras, narração ao vivo, basta clicar e ouvir. Tudo gratuito, tudo generoso, tudo conveniente. O brasileiro médio, treinado há gerações a confundir presente com produto pago, agradece comovido. E é exatamente nesse instante que vale parar, respirar fundo e fazer a pergunta que ninguém quer ouvir num domingo de futebol: se é de graça, quem está bancando? Porque microfone aceso custa, equipe de transmissão custa, direitos de jornalismo esportivo custam, e a única coisa que não custa nada neste país é a ingenuidade do ouvinte.

Siga o fio do novelo e ele desemboca sempre no mesmo lugar. A cadeia de rádio vive de publicidade, e boa parte dessa publicidade vem de bancos com participação federal, estatais de energia, montadoras turbinadas a crédito subsidiado, planos de saúde regulados até o último glóbulo branco e construtoras que mamam em programa habitacional. Quer dizer, o cidadão paga imposto, o imposto financia a estatal, a estatal compra anúncio, o anúncio sustenta a transmissão e, no final, o sujeito acredita que está ganhando alguma coisa. É o equivalente esportivo do circo romano, com a diferença pitoresca de que o romano pelo menos sabia quem pagava o pão e o espetáculo, enquanto o brasileiro contemporâneo ainda acha que o senador é generoso quando inaugura ponte.

Há ainda a camada confederativa, federativa, ministerial, secretarial e cartorial que orbita o futebol como urubu sobre carniça. Clube endividado renegocia tributo com perdão presidencial, estádio reformado com dinheiro público vira sede particular, federação estadual recebe isenção, dirigente vira deputado, deputado aprova lei que beneficia federação, e o ciclo se fecha com a elegância de uma quadrilha bem ensaiada. Quando o locutor grita gol, há uma fila invisível de beneficiários comemorando junto, e nenhum deles jamais entrou em campo. O torcedor, coitado, é o único que sai do estádio com a camisa suada e a carteira vazia, convencido de que viveu um momento de paixão pura.

A coisa fica ainda mais pitoresca quando se considera o moralismo seletivo da imprensa esportiva. Os mesmos veículos que se escandalizam com aposta esportiva, que pedem regulação para tudo que respira, que querem fiscal em cada esquina do entretenimento, são os primeiros a viver de patrocínio de casa de aposta, de banco intervencionista e de programa governamental travestido de campanha institucional. É a velha tática do ladrão que grita pega ladrão, aperfeiçoada por décadas de convivência promíscua entre redação e palácio. Pregam austeridade para o ouvinte e gastança para si, defendem mercado quando lhes convém e estatização quando o caixa aperta.

O futebol, que poderia ser apenas o que é, ou seja, vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola sob regras voluntariamente aceitas, foi transformado em instrumento de pacificação social, em opióide tributado, em tela de projeção para a vaidade do poder. Pão e bola, na fórmula moderna, com a vantagem cínica de que o pão agora vem com glúten subsidiado e a bola com taxa de iluminação pública embutida. Quem paga? O contribuinte de cada parcela do salário comido pelo imposto. Quem recebe? A rede de afilhados que faz do esporte mais um balcão de negócios travestido de paixão nacional.

Então assista ao jogo, torça pelo seu time, grite o gol se ele vier. Mas saiba que a narração que entra no seu ouvido custou caro, só que não a você diretamente, e por isso parece barata. A mais antiga e eficaz forma de servidão é aquela em que o servo aplaude o senhor por lhe devolver, em forma de espetáculo, uma fração mínima do que lhe foi tomado em forma de tributo. Quem paga? Você. Quem recebe? Praticamente todo mundo, menos você.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.