Alice Ribeiro, repórter da Band Minas, de vinte e seis anos, teve a morte encefálica confirmada na quinta-feira, dias depois de o carro de reportagem em que estava ser atingido por um caminhão num trecho da BR-381, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. É a conta de sempre naquele asfalto. A estrada que liga Belo Horizonte a São Paulo não ganhou de esmola o apelido sinistro de "rodovia da morte". Conquistou no suor alheio, quilômetro por quilômetro, cruz por cruz, boletim de ocorrência por boletim de ocorrência, enquanto sucessivos governos encenavam solenidades de lançamento de obras que nunca nasceram.
A duplicação da BR-381 no trecho mineiro é promessa de orçamento federal desde antes de muita gente que hoje dirige ter tirado carteira. Houve edital, houve releitura de edital, houve leilão, houve leilão refeito, houve consórcio contratado, houve consórcio rescindido, houve novo consórcio prometido. Entre uma cerimônia e outra, ministros posaram com capacete, deputados soltaram nota de congratulação, e a única coisa que avançou com pontualidade cronométrica foi o desfile de caixões. A obra em si, essa permanece parada em algum gabinete, encostada no cantinho da pasta de prioridades onde também repousa a decência.
Quem pagou? O contribuinte. Paga na bomba, na CIDE, no IPVA, no imposto de renda, no tributo embutido em cada cafezinho de posto. Quem recebeu? Os de sempre. Empreiteiras que faturaram estudos de viabilidade e pararam ali, burocratas que carimbaram pareceres e engordaram carreira, políticos que transformaram a promessa de duplicação em cabo eleitoral renovado a cada quatro anos. O dinheiro da rodovia existe. Está nos balanços de ongs fantasmas, em aditivos contratuais misteriosos, em reajustes inflados, em consultorias que ninguém leu. O que não está é no acostamento, no terceiro pista, na sinalização decente, no guard rail que segura um carro de reportagem de ser pulverizado por um caminhão.
É aí que a lógica corta fundo. Se alguém monopoliza por lei a construção e a manutenção de uma via, proíbe concorrência, cobra tributo compulsório com a ameaça da violência estatal, e ainda por cima escolhe quem executa a obra com critérios que o eleitor nunca conhece, então esse alguém é responsável pelo resultado. Ponto. Não há como privatizar o luto e socializar a desculpa. Ou o Estado responde pelo asfalto que cobra, ou devolve o dinheiro e deixa que outros façam. Qualquer coisa entre essas duas alternativas se chama, na língua franca da rua, picaretagem com corpo de manual.
Compare com o trecho de rodovias concessionadas que funcionam. Não por virtude moral das empresas, que não as têm em quantidade superior à média, mas porque ali existe contrato, existe meta, existe multa, existe cliente que pode reclamar e acionista que cobra. Onde o asfalto é "público" de verdade, no sentido político do termo, o cidadão é súdito de uma autoridade distante que não responde por nada. Onde é minimamente privado, o cidadão vira cliente, e cliente morto é processo, indenização, prejuízo. A diferença entre ser tratado como gado e ser tratado como gente costuma caber nessa fronteira administrativa que o discurso oficial se esforça para apagar.
Alice virou estatística numa planilha que o governo prefere não atualizar em letras grandes. Amanhã haverá nota de pesar assinada por ministério, declaração comovida de governador, minuto de silêncio em plenário, e no dia seguinte a licitação da duplicação seguirá empacada pelo mesmo motivo pelo qual estava empacada ontem: porque o arranjo atual rende mais a quem decide do que a obra pronta renderia. Enquanto isso não mudar, a BR-381 continuará fazendo o que sempre fez, cobrar na carne o que o orçamento embolsou em espécie. Quem paga a conta segue sendo o motorista, o passageiro, o repórter que estava só trabalhando. Quem recebe, segue intocado.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.