Quarenta por cento. Digam esse número em voz alta e deixem ele pousar. Quarenta por cento de aprovação, depois de três anos de cadeia nacional de rádio e televisão, de aparelhamento de ministérios com os mesmos rostos que já aparelharam os mesmos ministérios nas três administrações anteriores, de uma máquina de comunicação subsidiada com dinheiro público que faria inveja a qualquer regime que preferimos não nomear por polidez diplomática. Quarenta por cento. Se fosse uma empresa, os auditores já teriam pedido concordata. Se fosse um time de futebol, o técnico já estaria no aeroporto com a mala feita. No Brasil, isso vira manchete de "cenário dividido", como se dividido significasse equilibrado, como se quarenta contra sessenta fosse uma disputa de igual para igual entre dois lados razoáveis de uma questão razoável.
Não é. Nunca foi. A divisão não é entre "os que aprovam" e "os que reprovam", como se fossem duas torcidas igualmente legítimas num estádio. A divisão é entre os que pagam a conta e os que apresentam a conta. E quando você percebe isso, os quarenta por cento de aprovação começam a fazer todo o sentido do mundo, porque quarenta por cento é aproximadamente a fatia da população que tem alguma relação de dependência direta ou indireta com o Estado. Servidor público federal, beneficiário de programa assistencial, contratado de empresa que vive de licitação, sindicato com convênio firmado, movimento social com verba garantida. Não estou inventando nada, estou apenas seguindo o dinheiro, que é o método mais honesto de análise política que existe e o mais sistematicamente evitado pela imprensa que prefere falar de "narrativa" e "percepção".
O dado mais revelador da pesquisa não é a aprovação, é a reprovação crescente. Porque a aprovação tem um piso estrutural que qualquer governo petista mantém por simples fidelidade de clientela, aqueles quarenta por cento são o colchão, o núcleo duro, o eleitorado cativo que aprovaria o governo mesmo que o dólar fosse a dez reais e o botijão de gás custasse uma diária de hotel. O que muda, o que oscila, o que derruba e reconstrói governos são os que estavam no meio, os chamados independentes, os que votaram por esperança ou por desgosto do outro lado, e que agora, com a geladeira abrindo toda manhã com a mesma cara de poucos amigos, começam a fazer as contas que não fizeram no dia da eleição. Esse movimento das bordas para a reprovação é o termômetro real. O resto é protocolo.
Há uma lição que a história ensina com crueldade metódica: governos que constroem sua legitimidade sobre promessa de bem-estar material enfrentam um julgamento implacável quando o bem-estar não aparece. Não é questão de justiça ou ingratidão do eleitorado, é lógica pura. Se você se candidatou dizendo que o povo ia comer três vezes por dia e depois o povo está comendo duas, você será cobrado pelas três refeições prometidas com a mesma intensidade com que seria cobrado por uma dívida assinada em cartório. Os romanos tinham uma expressão para isso que o latim guarda com precisão que o português moderno perdeu: res ipsa loquitur. A coisa fala por si mesma. O preço da carne fala. O preço do aluguel fala. A taxa de juros que corrói o crédito do pequeno comerciante fala. Nenhuma cadeia nacional de rádio e televisão tem volume suficiente para cobrir esse barulho.
O que o Datafolha mediu, no fundo, não é a popularidade de um presidente. É a velocidade com que a realidade vence a retórica. E a realidade, ao contrário da retórica, não tem assessor de imprensa, não tem verba de publicidade institucional, não precisa de horário eleitoral gratuito. Ela aparece toda manhã no extrato bancário, no preço do mercado, na fila do pronto-socorro, na conta de luz que subiu enquanto a autoridade do setor explicava em linguagem técnica por que a culpa é da natureza, do vento, da chuva, do sol, de qualquer coisa que não seja a decisão política de quem assina os decretos. Quarenta por cento aprovam. Sessenta por cento, em proporções variadas, já desistiram de esperar. E a pesquisa que vier na semana seguinte dirá a mesma coisa com números ligeiramente diferentes, e o governo emitirá nota dizendo que os dados mostram "resiliência", e a vida continuará sendo o que é, independentemente do adjetivo que o assessor escolher para ela.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.