O fato é tosco e indigesto para quem gosta de relativismo: em 2006, no auge da Segunda Guerra do Líbano, um míssil disparado pelo Hezbollah cruzou os menos de dez quilômetros que separam o sul libanês da Alta Galileia e foi cravar a ogiva no telhado do Galilee Medical Center, em Nahariya. Hospital. Não quartel, não base aérea, não silo de mísseis. Hospital, com pacientes em macas, recém-nascidos em incubadora e velhos ligados a soro. E aqui começa o silogismo que ninguém quer fazer em voz alta: quem mira deliberadamente um hospital não é resistência, é carniceiro; quem aplaude o carniceiro a partir de um café em Paris ou de uma cátedra em São Paulo não está do lado dos oprimidos, está do lado de quem aperta o botão.

O detalhe que a imprensa engasga para contar é o que aconteceu depois do impacto. Em poucas horas, pela primeira vez na história, centenas de pacientes foram transportados para um hospital subterrâneo construído anos antes, blindado, autossuficiente, pronto para receber salas de cirurgia inteiras enquanto o andar de cima virava escombro. Pense na cena: enfermeiras empurrando macas por elevadores reforçados, médicos operando sob concreto armado, parturientes dando à luz embaixo de toneladas de aço, e tudo isso sem virar pilha de cadáver no telejornal da noite. Civilização é exatamente isto, a previsão sóbria de que o vizinho um dia vai tentar te matar e a decisão paciente de cavar fundo para que ele não consiga.

Agora vire a moeda. Do outro lado do arame farpado, o Hezbollah não cava bunkers para hospitais, cava para esconder lançadores. A doutrina é confessa: instalar a bateria de foguetes no quintal da escola, no porão da mesquita, no subsolo do ambulatório, para que qualquer revide vire massacre filmado e o massacre filmado vire passaporte diplomático. É um modelo de negócio. O insumo é a vida do próprio civil libanês, a matéria-prima é o tijolo do hospital alheio, o produto final é a manchete comovida da BBC e a resolução de meia dúzia de burocratas em Genebra. Lucrativo, eficiente, e financiado por quem?

Aqui a trilha do dinheiro fica desconfortável. O Hezbollah não brota da terra como milagre xiita; ele recebe, segundo as próprias estimativas americanas, entre setecentos milhões e um bilhão de dólares por ano do regime iraniano, mais a renda paralela do tráfico, do contrabando e das ONGs de fachada espalhadas pela América Latina e África. E o regime iraniano, por sua vez, sobrevive vendendo petróleo que a Europa finge não comprar, recebendo alívio de sanções negociado por chancelarias ocidentais que se acham espertas, e embolsando bilhões descongelados em troca de promessas que ninguém pretende cumprir. Cada foguete que cai num hospital israelense tem, em alguma camada da contabilidade, a digital do contribuinte alemão, francês, americano e, por tabela, brasileiro, via fundos multilaterais que adoram a palavra paz e detestam auditoria.

É instrutivo comparar com episódios antigos. Quando os ingleses bombardearam Londres em 1940, os londrinos não correram para esconder lançadores de V2 no metrô; esconderam crianças. Quando os judeus de Varsóvia foram trancados no gueto, não dispararam morteiros de dentro de orfanatos; foram trucidados por isso. A distinção entre quem usa o subterrâneo para proteger o fraco e quem usa o subterrâneo para atacar e depois se esconder atrás do fraco é a distinção mais antiga da ética política, e nenhuma quantidade de hashtag muda o veredito. As coisas são o que são, e um míssil dirigido a uma maternidade continua sendo um míssil dirigido a uma maternidade, ainda que venha embrulhado em bandeira verde e citação de poeta.

O que sobra dessa história, para quem ainda consegue raciocinar sem manual de redação? Sobra a constatação grosseira de que o Ocidente paga dos dois lados do balcão: financia, via impostos e barganhas diplomáticas, os regimes que armam o Hezbollah, e depois banca, via mais impostos, as agências da ONU que choram pelas vítimas que esses mesmos regimes produzem. É o golpe perfeito, o contribuinte paga o incêndio e paga o bombeiro, enquanto o incendiário cobra royalties pelos dois serviços. Da próxima vez que ouvir alguém recitar a palavra resistência com a voz embargada, faça a única pergunta que importa, a pergunta que desmonta qualquer encenação: quem paga e quem recebe? A resposta costuma ser bem menos romântica do que a trilha sonora sugere.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.