Olha o roteiro: uma empresa de telefonia em nuvem que passou os últimos anos tentando convencer o mercado de que ainda tem relevância sobe no palco da conferência de tecnologia do Goldman Sachs e anuncia, com voz grave de quem descobriu a pólvora, que está "avançando em inteligência artificial com disciplina financeira". A plateia aplaude. Os analistas escrevem relatórios. As ações oscilam alguns pontos. E ninguém, absolutamente ninguém, faz a pergunta que qualquer pessoa com dois neurônios funcionando faria: se a disciplina financeira é tão notável, por que precisa ser anunciada como se fosse a segunda vinda?

Quer dizer, tem coisa mais reveladora do que uma empresa jurar publicamente que está sendo responsável com o dinheiro? É o equivalente corporativo do sujeito que jura fidelidade sem que ninguém tenha perguntado. A RingCentral vive num mercado onde competidores maiores, com bolsos infinitamente mais fundos, embutem funcionalidades de IA nos pacotes de comunicação corporativa como quem coloca ketchup no sanduíche, de graça, sem cobrar a mais. E aí chega a nossa protagonista prometendo "avanço" numa corrida em que ela está três voltas atrás dos líderes. Isso não é estratégia, isso é sobrevivência disfarçada de visão.

Me diz uma coisa, o que exatamente essas conferências do Goldman Sachs entregam ao investidor comum além de coreografia? O banco monta o palco, escolhe os figurantes, cobra caro pela mediação, e todo mundo sai de lá com a sensação de ter participado de algo importante. É o teatro do capitalismo de compadrio moderno, onde a mesma casa que vende as ações é a mesma que organiza o evento onde as empresas justificam por que essas ações deveriam ser compradas. Cadê o conflito de interesse? Não existe conflito, existe apenas ecossistema. E o ecossistema se alimenta da fé cega do pequeno investidor de que ali dentro se produz informação e não propaganda.

A tal "disciplina financeira" merece atenção especial. Traduzindo do idioma corporativo para o português: cortamos gente, cortamos investimento em produto, apertamos margem, e agora precisamos vender essa contração forçada como se fosse virtude estratégica. É a velha alquimia da comunicação empresarial, transformar problema em mérito através de adjetivo bem escolhido. A empresa não está enxuta porque quer, está enxuta porque precisa. Não está focada porque escolheu, está focada porque não pode mais se dar ao luxo de dispersar. E o mercado, sempre disposto a comprar narrativa em vez de examinar planilha, aplaude a coreografia.

Enquanto isso, quem paga a conta dessa liturgia? Os clientes corporativos que continuam mensalidade após mensalidade sustentando uma estrutura que compete com gigantes que oferecem o mesmo produto embutido em outro pacote. Os funcionários que sobraram após as ondas de demissão e agora fazem o trabalho de três. Os pequenos acionistas que compraram o papel a preços muito mais altos há alguns anos e agora seguram posição torcendo para que a próxima conferência traga uma frase mágica que reanime o gráfico. Todo mundo pagando por uma peça teatral cujo final já foi escrito faz tempo pelas forças do mercado.

A lição atravessa qualquer setor e qualquer década. Quando uma empresa precisa ir a um palco emprestado explicar por que ainda existe, o problema já não é de comunicação, é de fundamento. IA de verdade não se anuncia em conferência, se vê no produto. Disciplina financeira de verdade não se declara, aparece no balanço sem precisar de tradução. E capitalismo de verdade não precisa de banco de investimento organizando missa para explicar por que aquela hóstia específica merece devoção. Onde há muita cerimônia, geralmente há pouco milagre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.