Um robô de 62 quilos corre a 36 km por hora numa pista de atletismo e o planeta inteiro se derrete em admiração. A Unitree Robotics, empresa chinesa que já virou queridinha de feiras tecnológicas, divulga o vídeo com a pompa de quem acaba de curar o câncer. A imprensa mundial repete o feito como papagaio amestrado, comparando a velocidade com o recorde de Usain Bolt, como se a façanha de um amontoado de servo-motores e algoritmos pudesse ser equiparada à genialidade biológica de um jamaicano que comia nuggets antes de quebrar recordes olímpicos. A pergunta que ninguém faz, porque ninguém nunca faz, é a única que importa: quem pagou por isso?
A China não tem uma indústria de robótica, tem um programa de Estado. Cada empresa que desponta no setor de tecnologia avançada chinesa é, direta ou indiretamente, irrigada por subsídios governamentais, crédito estatal a juros de mentira, isenções fiscais que fariam um contador chorar de inveja e, quando tudo mais falha, pelo bom e velho protecionismo que fecha o mercado interno para garantir que o campeão nacional não precise competir de verdade. A Unitree pode até ter engenheiros brilhantes, e provavelmente tem, mas brilhantismo técnico financiado por confisco compulsório de uma população de 1,4 bilhão de pessoas não é inovação de mercado, é vitrine de regime. O Partido Comunista Chinês aprendeu o que todo governo aprende cedo ou tarde: tecnologia de ponta impressiona jornalistas, e jornalistas impressionados produzem legitimidade de graça.
Há algo de profundamente cômico nessa corrida, e não é a velocidade do robô. É a inversão completa de valores que ela revela. Um camponês do interior de Guizhou, que ganha o equivalente a 300 dólares por mês e não tem esgoto tratado, está, sem saber e sem consentir, financiando um brinquedo de 62 quilos que corre em pista emborrachada para que executivos de Hangzhou possam posar para a Bloomberg. Isso não é progresso, é a velha e milenar arte de tirar do pobre para impressionar o rico. Os faraós faziam a mesma coisa com pirâmides, os soviéticos fizeram com foguetes, e Pequim faz com robôs humanoides. A estrutura é idêntica, só muda o material de construção.
E antes que alguém levante a objeção previsível de que todo país faz isso, sim, faz. Os Estados Unidos despejaram fortunas na DARPA para criar a internet, o GPS e uma coleção de brinquedos militares que depois viraram conveniência civil. A diferença, e ela é decisiva, é que num ambiente de mercado minimamente livre a tecnologia escapa do controle burocrático e encontra uso real nas mãos de gente que arrisca dinheiro próprio. Na China, a tecnologia serve ao plano quinquenal, e o plano quinquenal serve ao Partido, e o Partido serve a si mesmo. O robô corre a 36 km por hora, mas a liberdade individual do cidadão chinês continua parada, com os dois pés cimentados no chão.
O que deveria causar espanto não é a velocidade do humanoide, mas a velocidade com que o mundo engole propaganda estatal disfarçada de inovação privada. Toda vez que uma empresa chinesa de tecnologia aparece nos holofotes, a narrativa é sempre a mesma: gênio empreendedor, visão de futuro, competitividade asiática. Nunca se menciona o aparato coercitivo por trás. Nunca se pergunta quantas empresas menores foram esmagadas, quantos competidores foram impedidos de entrar, quanto capital foi mal alocado porque um burocrata de Pequim decidiu que robótica era prioridade estratégica. O mercado, quando livre, é um processo de descoberta. Quando dirigido pelo Estado, é um processo de propaganda. E propaganda, por mais sofisticada que seja, não gera riqueza, apenas a redistribui, invariavelmente dos que produzem para os que mandam.
Então, sim, o robô da Unitree corre quase tão rápido quanto Bolt. Parabéns. Agora vá perguntar ao trabalhador chinês mediano se ele prefere um robô corredor ou um sistema de saúde que funcione, liberdade para criticar seu governo sem desaparecer, ou o direito elementar de escolher onde morar sem precisar de permissão burocrática. A resposta, claro, ele não pode dar em voz alta. Mas o robô corre, e isso é o que importa. Para quem paga a conta, nunca importou.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.