O anúncio foi feito num evento do Lide, em São Paulo, diante da plateia certa, com o cenário certo, no figurino certo. Rodrigo Pacheco, presidente do Senado entre 2021 e 2025, comunicou ao Brasil que não disputará o governo de Minas Gerais em 2026 e que se despedirá da vida pública ao fim do mandato, em 2027. Tudo muito digno, muito sereno, muito estadista. Falta apenas explicar ao leitor o detalhe que ninguém da mesa quis tocar, qual seja, que pesquisa nenhuma colocava o senador em condições de ganhar coisa alguma em Minas, e que retirar-se "por opção" é o último luxo que resta a quem já perdeu antes de concorrer.
Convém recordar de onde veio o personagem. Pacheco chegou à presidência do Senado em 2021 com o apoio entusiasmado do mesmo bloco fisiológico que governa o Congresso há trinta anos, aquela confraria que troca emenda por voto, ministério por silêncio e relatoria por orçamento secreto. Foi sob a sua batuta, com terno bem cortado e voz pausada, que o orçamento dito secreto floresceu como nunca, que pautas incômodas dormiram em gavetas confortáveis e que projetos caros ao governo de turno avançaram na velocidade exata combinada nos gabinetes. Não há mistério algum no currículo, há recibo. Cada pauta engavetada beneficiou alguém com nome, sobrenome e CNPJ.
Pergunte agora a pergunta que o jornalismo bem comportado nunca faz, isto é, quem pagou e quem recebeu durante esses anos todos. Pagou o contribuinte, aquele sujeito anônimo que trabalha onze meses por ano para o Leão e ainda agradece quando o ministro da Fazenda promete não aumentar imposto no décimo segundo. Receberam os de sempre, as empreiteiras agraciadas com obras infindáveis, os fundos partidários inflados a cada eleição, os caciques regionais que descobriram no orçamento paralelo a fórmula da juventude eterna. Pacheco foi o mordomo elegante dessa casa, não o dono. Mas mordomo de casa rica também janta bem, e ninguém aceita servir banquete por amor ao garfo.
Há uma lógica simples que o discurso de despedida tenta encobrir com véu de seda. Se um homem público anuncia que sai porque cumpriu sua missão, há duas hipóteses, e somente duas. Ou cumpriu de fato, e nesse caso deveria enumerar entregas concretas ao cidadão comum, redução de carga tributária, corte de privilégios, devolução de poder ao indivíduo, coisas que nenhum biógrafo honesto encontrará no acervo do senador. Ou não cumpriu nada do que interessa ao povo, cumpriu fartamente o que interessa ao clube, e agora se retira porque o clube já não precisa mais dele na linha de frente. Não existe terceira opção. A política brasileira não produz santos cansados, produz operadores satisfeitos.
O detalhe saboroso, e que mereceria uma crônica à parte, é o cenário escolhido para o anúncio. Lide, em São Paulo, evento de empresários endinheirados que adoram um político "moderado", isto é, dócil o suficiente para não mexer no andar de cima e firme o bastante para conter qualquer barulho vindo do andar de baixo. É nesse tipo de salão que se decide qual ex-autoridade vira conselheiro de banco, qual vira sócio de escritório de advocacia em Brasília, qual abre a própria consultoria para vender acesso a antigos colegas. A "aposentadoria" do senador não é fim de carreira, é troca de razão social. O homem não está saindo do jogo, está mudando de mesa, e a nova mesa paga melhor, em dólar, e sem o inconveniente da urna.
Resta ao cidadão, esse eterno pagador da conta, observar a cena com o sarcasmo que ela merece. O político sai de cena agradecendo a oportunidade de servir, a plateia aplaude de pé, os jornais publicam perfis comovidos sobre o "homem de diálogo", e na semana seguinte o lugar vago é ocupado por outro idêntico, vindo do mesmo viveiro, treinado nas mesmas técnicas, comprometido com os mesmos interesses. Muda o nome na placa do gabinete, não muda quem paga e quem recebe. Enquanto for assim, qualquer despedida solene merece a mesma reverência que se dá ao mágico de rua quando ele guarda as cartas no bolso, palmas educadas e a certeza de que o truque já era conhecido antes mesmo do início do espetáculo.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.