Cinco bilhões e novecentos milhões de reais evaporados em quatro meses. É o pior resultado para o período desde quando o Banco Central começou a medir o estrago, lá em 2002, e já ultrapassa, em apenas um terço do calendário, todo o rombo que as estatais federais empilharam ao longo de 2025 inteiro. Para entender a façanha, imagine um restaurante que perde dinheiro em cada prato servido e, em vez de fechar, abre filiais. Pois é exatamente esse o modelo de negócio que o cidadão sustenta com seu salário descontado na fonte, com seu combustível tributado, com sua conta de luz inflada por encargos cuja sigla ninguém decora porque ninguém quer que se decore.
Há uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer outra, e ela é desconfortável porque costuma vir acompanhada de nomes, sobrenomes e cargos comissionados. Se a empresa quebra, quem fica rico? Porque alguém fica. Estatal deficitária não é acidente da natureza, não cai do céu como granizo, não brota do chão como erva daninha. É arranjo. É contrato superfaturado assinado com fornecedor amigo, é diretoria loteada entre partidos da base, é consultoria contratada sem licitação para produzir relatório que ninguém lê, é dívida emitida a juros generosos comprada por banco que depois revende com lucro. O prejuízo aparece no balanço público; o lucro some na contabilidade privada de quem soube se posicionar na hora certa.
A retórica oficial sempre vem com o mesmo figurino: a estatal cumpre função social, leva desenvolvimento, garante soberania, protege o povo do mercado selvagem. Belíssimo. Resta explicar então por que esse povo, beneficiário declarado de tamanha generosidade, é justamente quem assina o cheque do prejuízo, com correção monetária e juros. O silogismo é cru e não admite floreio: se o dinheiro sai do bolso do contribuinte e termina como rombo, então o contribuinte pagou para perder. Chamar isso de função social exige um tipo de coragem semântica que só medra em ministério com ar-condicionado central.
O detalhe histórico que ninguém gosta de lembrar é que monopólio estatal sempre teve a mesma trajetória, do Egito faraônico ao mercantilismo europeu, passando pelas companhias coloniais que faliram deixando dívidas para a Coroa cobrir com novos impostos. A casca muda, o miolo é idêntico: um grupo captura o aparato, transforma a empresa em feudo, distribui empregos como antigamente se distribuíam terras, e quando a operação afunda chama o tesouro para o resgate sob o argumento de que a alternativa seria pior. É sempre pior. Há trinta anos é pior. Daqui a trinta continuará sendo pior, porque o pior, para quem mama na teta, é fechar a torneira.
O mais saboroso é a naturalidade com que se anuncia o desastre. Um déficit recorde sai numa sexta-feira à noite, momento clássico do enterro de notícias, e na segunda já ninguém comenta, porque o ciclo informativo do brasileiro tem a memória de um peixinho dourado e a indignação de um sofá. Enquanto isso, o orçamento do ano que vem já contempla aporte, capitalização, subvenção, sinônimo escolhido com carinho pelo redator do projeto de lei para que a palavra propina não apareça em parte alguma. A engenharia linguística é admirável; a engenharia financeira, criminosa. Se uma empresa privada operasse assim, o dono estaria preso, os diretores respondendo a processo e os auditores cassados. Como é estatal, ganha matéria celebrando o esforço da gestão diante de cenário desafiador.
Resta ao leitor, que pagou e continuará pagando, o mesmo exercício de sempre: olhar para o próprio contracheque, contar o que falta, contar o que foi confiscado a título de imposto, e perguntar para onde foi. Parte foi para esse buraco de quase seis bilhões em quatro meses. Outra parte sustenta os que administram o buraco. Uma terceira parte paga a propaganda que explica por que o buraco é virtuoso. Não há reforma administrativa, não há plano de eficiência, não há novo modelo de governança que conserte isso, porque o buraco não é defeito do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar. Quem desenhou sabia o que estava fazendo. Quem paga, até hoje, finge que não.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.