A Royal Road Minerals anunciou o encerramento de uma colocação privada de C$ 1 milhão, dessas operações discretas que a bolsa canadense adora, feitas longe do varejo, no boca a boca institucional, com desconto camarada para quem tem CPF certo na lista. O comunicado sai vestido de vitória. Vitória para quem, é a pergunta que ninguém do outro lado do balcão se dispõe a responder.

Toda vez que uma júnior de mineração faz esse tipo de captação, o enredo é o mesmo. A empresa não gera caixa, não tem receita operacional relevante, e sobrevive de emissão em emissão, como planta trepadeira que se agarra ao próximo poste porque o anterior já cedeu. C$ 1 milhão em oferta restrita significa novas ações, novos warrants, nova diluição, e a promessa protocolar de que agora vai. Sempre agora vai. Faz vinte anos que agora vai.

Siga o dinheiro e a paisagem fica menos épica. Boa parte dessas captações se evapora em honorários de advogados, comissões de corretoras, taxas de listagem, salários da diretoria, viagens de reconhecimento a jurisdições exóticas e relatórios técnicos que ninguém lê. O que sobra para meter picareta no chão é o resto, e o resto costuma ser modesto. Enquanto isso, o insider que participou da rodada recebe ações com desconto e warrants de bônus, um bilhete quase gratuito para apostar contra o próprio acionista minoritário que já estava lá.

Existe um vício estrutural nesse tipo de indústria que ninguém quer nomear. O modelo depende de crédito barato, de juros suprimidos artificialmente por bancos centrais, de investidores desesperados por rendimento em qualquer coisa que pareça alavancagem. Quando o custo do dinheiro está no chão, brotam mil juniores prometendo o próximo El Dorado. Quando o custo sobe, morrem em silêncio, com os acionistas iniciais segurando papel higiênico caro. O ciclo não é falha de mercado, é consequência direta da manipulação monetária que ninguém chama pelo nome.

O curioso é a naturalidade com que a imprensa financeira reproduz o comunicado como se fosse notícia. "Concluiu esforços restritos", diz o release, na linguagem asséptica que serve para esconder o óbvio. Esforço de quem? Restrito a quem? O que se vê é a manchete positiva. O que não se vê é o acionista antigo, aquele que comprou na alta da rodada anterior acreditando no plano de perfuração, descobrindo na sexta-feira à noite que agora vale um pedaço menor da mesma empresa que continua sem produzir grama de metal.

Nenhuma dessas operações é ilegal, e não é disso que se trata. O ponto é o teatro. Uma indústria inteira construída sobre o pressuposto de que emissão perpétua é sinônimo de progresso, e que quem financia é bobo de não entender que está financiando principalmente a máquina administrativa que emite. No dia em que o dinheiro voltar a ter preço de verdade, metade desses ativos vira pó, e o resto vira aula de história econômica para o próximo ciclo, que já está sendo gestado nos mesmos escritórios, com os mesmos nomes, e a mesma linguagem cuidadosamente vaga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.