O fato é simples e não carece de embelezamento: Ruby Rose publicou nas redes sociais uma acusação de assédio sexual contra Katy Perry, descrevendo um episódio que, segundo ela, aconteceu há aproximadamente duas décadas numa boate em Melbourne. Duas décadas. Uma geração. Tempo suficiente para que responsáveis por qualquer coisa se aposentem, para que testemunhas percam a memória, para que contextos se dissolvam por completo e para que qualquer defesa objetiva se torne materialmente impossível. Curioso, não? Porque é exatamente essa impossibilidade que faz do tribunal das redes o lugar preferido de certas acusações.

Antes de qualquer análise do mérito, a pergunta que nenhum jornalista civilizado ousa fazer em voz alta: quem se beneficia? Ruby Rose não é exatamente o nome que domina os algoritmos em 2026. A carreira tem lacunas, os projetos se espaçaram, o holofote foi migrando para outros endereços. Katy Perry, por outro lado, encerrou uma turnê milionária, mantém contrato com gigantes do entretenimento e segue sendo uma marca de primeiro nível no mercado global de espetáculo. Atacar quem está no topo é sempre uma operação de visibilidade. Isso não significa que a acusação seja falsa. Significa que o mercado de atenção tem suas próprias leis, e ignorá-las é ingenuidade de analista principiante.

O que o episódio revela com cirúrgica clareza é a arquitetura do novo poder punitivo: não há delegacia, não há promotor, não há juiz, não há contraditório, não há ampla defesa, não há presunção de inocência e não há recurso. Há uma postagem e há uma condenação instantânea operada por milhões de pessoas que não estavam na boate, não conhecem as partes, não têm acesso a evidências e não responderão por nenhuma consequência do julgamento que acabam de emitir. A Revolução Francesa tinha pelo menos a guilhotina física, que exigia certa logística e deixava rastro. O tribunal das redes é mais limpo, mais rápido e infinitamente mais cruel, porque a reputação destruída não se reconstrói e ninguém pede desculpas.

Existe uma contradição estrutural no coração desse circo que merece atenção. O movimento que se apresenta como protetor das mulheres contra o abuso de poder produziu um mecanismo que é, em si mesmo, um instrumento de poder descontrolado: a acusação pública irrefutável. Quando a mera alegação equivale à prova, quando questionar os fatos equivale a cumplicidade com o agressor e quando a dúvida vira crime, o que se criou não é um sistema de proteção, é um sistema de controle. E todo sistema de controle serve a quem o opera. A pergunta segue em aberto: quem opera esse sistema? Mais importante ainda: quem decide contra quem ele é ativado, e quando?

Note que não estamos dizendo que Katy Perry é inocente. Não sabemos. Ninguém sabe. Esse é exatamente o ponto. Vinte anos de distância, uma boate, duas pessoas, sem registro, sem testemunha identificada, sem processo algum. O que existe é uma narrativa unilateral publicada numa plataforma gerida por um conglomerado privado americano que lucra com cada clique de indignação que o post gera. Enquanto o debate moral ferve, os servidores faturam. A audiência é o produto. A fúria é a monetização. E os dois nomes nessa história, a acusada e a acusadora, são o conteúdo que alimenta a máquina. Algum adulto na sala quer discutir isso?

Duas décadas de silêncio terminam numa rede social. Pode ser coragem tardia, pode ser estratégia, pode ser as duas coisas simultaneamente, como quase tudo na vida humana. O que não pode ser é justiça, porque justiça exige procedimento, evidência e proporcionalidade. O que está sendo servido aqui é outra coisa: espetáculo com pretensão moral. E o espetáculo, como sempre, tem ingresso, tem patrocinador e tem quem fatura no fim da noite. Pergunte quem.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.