O ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia desembarcou no Brasil, sentou na Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira e, com a delicadeza de um leiloeiro em hora de almoço, ofereceu a Rosatom para tocar as próximas usinas nucleares do país. Traduzindo do diplomatês para o português de boteco: uma estatal de Vladimir Putin quer assinar contrato de décadas para construir, abastecer e operar reatores em solo brasileiro, com o contribuinte daqui bancando a conta e o Tesouro russo embolsando o lucro. Chamam isso de cooperação estratégica. No dicionário antigo, tinha outro nome.
Convém lembrar que o Brasil tem uma usina pela metade há quase quatro décadas, Angra 3, monumento de concreto à incompetência planejada, devorando bilhões sem produzir um quilowatt sequer. E é exatamente esse país, que não conseguiu terminar uma obra que começou nos anos 1980, que agora discute abrir o mercado nuclear para potências estrangeiras como quem oferece o sofá da sala para um hóspede que veio com mala grande. A pergunta honesta seria: se não fomos capazes de terminar o que estava no quintal, por que vamos confiar a fundação do quintal novo a quem tem agenda geopolítica própria?
Siga o dinheiro e o nevoeiro se dissipa. Um contrato de usina nuclear é o sonho úmido de qualquer construtora estatal: prazo elástico, orçamento que cresce sozinho como capim em terreno baldio, financiamento subsidiado, garantias soberanas e cláusula de tarifa cativa para o consumidor final pagar por trinta, quarenta anos. A Rosatom não vem aqui por simpatia ao samba; vem porque sabe que reator vendido é renda passiva garantida, vinculação tecnológica perpétua e dependência política de brinde. Quem assina do lado de cá ganha foto, viagem oficial, comissão política e cargo futuro. Quem paga é o sujeito que liga o chuveiro de manhã e recebe a fatura no fim do mês.
Há ainda o detalhe nada secundário da soberania, palavra que o governo adora pronunciar quando convém e esquece quando dá lucro. Energia nuclear não é padaria; é infraestrutura crítica, é combustível controlado, é manutenção de longuíssimo prazo, é peça de reposição que só sai de uma fábrica do outro lado do mundo. Entregar isso a um regime que usa gasoduto como chantagem na Europa é o equivalente a contratar o lobo para reformar o galinheiro e ainda lhe dar a chave da despensa. A premissa é simples: quem controla a tecnologia controla a torneira. Quem controla a torneira controla o cliente. E o cliente, no caso, somos nós.
Repare também na encenação. Vendem como modernização, como salto verde, como matriz limpa do futuro, sempre que o assunto exige justificativa moral para a despesa. Curioso que, quando o assunto é o produtor rural, o garimpeiro, a pequena hidrelétrica ou a exploração do pré sal, a mesma turma descobre escrúpulo ecológico instantâneo e veta tudo em nome de Gaia. Mas reator russo, ah, esse purifica a alma e ainda gera empregos verdes para o cunhado do assessor. A coerência ambiental dura exatamente o tempo de uma assinatura em Moscou.
No fim, a equação é a mesma de sempre, vestida com roupa nova e sotaque eslavo. Risco distribuído pela população, lucro concentrado em poucas mãos, decisão tomada entre quatro paredes por gente que jamais será responsabilizada pelo resultado. Se a obra atrasar, o contribuinte paga. Se a tarifa subir, o consumidor paga. Se a dependência tecnológica virar gargalo geopolítico daqui a vinte anos, o eleitor de então paga. Já o ministro que aperta a mão sorrindo nesta semana estará confortavelmente aposentado, palestrando sobre integração global em algum hotel de Genebra. Quem paga, paga. Quem recebe, recebe. O resto é fumaça de chaminé.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.