No dia 3 de junho, sem nenhum pudor, o governo federal subiu ao palco para anunciar que agora também vai ensinar inglês e espanhol pelo gov.br. O nome da brincadeira, segundo a propaganda oficial, é MEC Idiomas, e a imprensa palaciana já apelidou carinhosamente de Duolingo estatal, como se houvesse algo de fofo em um Leviatã que decide, depois de décadas destruindo o ensino público de línguas nas escolas que ele próprio administra, que a solução é abrir mais um aplicativo. Ou seja, o sujeito incendeia a casa, vende a mangueira, cobra o imposto da mangueira e depois aparece no telejornal entregando um copo d’água como prova de generosidade.

Convém lembrar o óbvio que ninguém quer dizer em voz alta: existem hoje, ao alcance de qualquer cidadão com um aparelho de mil reais, dezenas de aplicativos gratuitos, alguns excelentes, mantidos por empresas privadas que precisam agradar usuários para sobreviver. Se desagradarem, quebram. Se forem ruins, somem. É a disciplina silenciosa que o mercado impõe e que o burocrata jamais conhecerá, porque o burocrata não tem cliente, tem refém. O Duolingo de verdade compete por cada minuto da atenção do usuário; o Duolingo estatal compete contra nada e contra ninguém, porque seu orçamento não depende de aprovação, depende de retenção na fonte.

E aqui entra a pergunta que a reportagem oficial esqueceu de fazer, talvez por distração, talvez por instinto de sobrevivência: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus, paga a costureira, paga o entregador de aplicativo, paga o aposentado cuja correção ficou abaixo da inflação inventada pelo mesmo governo que agora se apresenta como benfeitor poliglota. Recebem as empresas de tecnologia contratadas, recebem as consultorias pedagógicas que vão produzir os tais conteúdos, recebem os cargos comissionados que vão coordenar coordenadores que coordenam coordenadores, e recebe, sobretudo, a máquina de propaganda que precisa de um anúncio novo a cada semana para justificar a própria existência.

O argumento de que o Estado precisa oferecer idiomas porque há cidadãos pobres que não têm acesso é a velha mágica do incendiário virando bombeiro. Se a escola pública entregasse o inglês que promete entregar há sessenta anos, ninguém precisaria de aplicativo nenhum. Mas a escola não entrega, porque o monopólio educacional não tem incentivo para entregar; tem incentivo apenas para perpetuar a clientela e a folha de pagamento. Resolver o problema seria liberar a concorrência, devolver dinheiro ao bolso das famílias, deixar que cada um escolha o método e o professor que funcionam. Ampliar o problema, ao contrário, é exatamente o que esse governo sabe fazer de melhor: cria mais um galho na mesma árvore podre e chama de fruta.

Há ainda o detalhe quase cômico, se não fosse trágico, de que toda plataforma estatal vira, mais cedo ou mais tarde, um repositório de doutrina. O que começa como conjugação de verbos termina como cartilha ideológica, porque nenhum governo resiste à tentação de aproveitar o aluno cativo para enfiar nele a visão de mundo da quadrilha de plantão. O conteúdo de hoje pode ser inocente; o de amanhã, depois de duas portarias e três decretos, ensinará que property se traduz por privilégio e que freedom é uma palavra perigosa do colonizador. Quem viveu, viu. Quem não viu, verá.

No fim das contas, o tal Duolingo estatal não é uma política educacional, é um anúncio publicitário pago compulsoriamente por quem nunca foi consultado. É a velha alquimia de transformar imposto em sorriso de ministro, confisco em manchete simpática, ineficiência em ato de bondade. E o cidadão, que já paga caro pela escola que não funciona, paga agora também pelo aplicativo que substitui a escola que não funciona, enquanto o aplicativo gratuito que faria o mesmo trabalho continua ali, do lado, esperando apenas que alguém perceba a piada. Yes, we have no bananas, mas temos plataforma federal de idiomas. Aleluia.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.