Há uma cena que se repete com regularidade clínica na história das burocracias brasileiras: um alto funcionário cai em desgraça, é substituído por outro de confiança do momento, e a imprensa celebra a troca como se fosse reforma. Gilberto Waller foi demitido na segunda-feira após onze meses comandando o Instituto Nacional do Seguro Social, e Ana Cristina Viana Silveira assume o posto com o currículo que o sistema mais valoriza: vinte e três anos dentro da máquina, tempo suficiente para aprender o que pode ser dito, o que deve ser calado e onde ficam os alçapões. Isso não é renovação. É manutenção.
O INSS arrecada por força de lei. Não há escolha, não há negociação, não há opt-out. Cada contracheque do trabalhador formal brasileiro entrega uma fatia ao instituto antes que o dono do salário sequer toque no dinheiro. São centenas de bilhões de reais por ano que transitam por um aparelho administrado por pessoas que não foram eleitas por ninguém, que não respondem a nenhum acionista, e cujo critério de permanência no cargo depende exclusivamente de relações políticas que o cidadão comum não enxerga e jamais é convidado a examinar. É o arranjo perfeito: quem paga não escolhe, quem administra não presta contas diretas, e quem nomeia os administradores decide conforme a geometria do poder do dia.
Onze meses. Esse foi o prazo de utilidade de Waller. Não se sabe ao certo o que mudou, quais interesses foram contrariados, qual fração do mosaico político deixou de ser atendida com o entusiasmo esperado. Isso nunca é dito com clareza, porque a clareza é inimiga do arranjo. O que se diz é que a nova presidente é "funcionária de carreira", "conhece o instituto", "tem experiência técnica", como se técnica fosse o que faltou ao antecessor e não outra coisa completamente diferente que ninguém vai nomear publicamente. A narrativa da competência é o verniz que cobre a realidade da lealdade.
Vinte e três anos dentro de uma instituição do porte do INSS não formam apenas um técnico: formam alguém que sobreviveu a múltiplos governos, múltiplos presidentes, múltiplas reformas previdenciárias, múltiplos escândalos. Essa sobrevivência não é acidental. Ela exige adaptabilidade, que é a palavra elegante para a disposição de servir a quem quer que esteja no andar de cima. Não se trata de crítica pessoal a Ana Cristina: é simplesmente a descrição honesta de como qualquer burocracia de longa duração funciona. Quem chega ao topo depois de duas décadas no interior da máquina é, por definição, alguém que aprendeu as regras não escritas da sobrevivência institucional. E a principal delas é nunca esquecer de onde vem a nomeação.
O escândalo real não está na troca de presidentes: está no que permanece intocado. O INSS continua sendo um mecanismo de transferência compulsória administrado por indicados políticos, com histórico documentado de fraudes bilionárias, benefícios pagos a mortos, contratos suspeitos e processos que se arrastam por décadas enquanto o aposentado real espera na fila. A cada novo presidente, o discurso é o mesmo: modernização, eficiência, transparência. E a cada escândalo subsequente, o leitor pode verificar por conta própria o quanto desse discurso se materializou. O dinheiro do trabalhador continua entrando. A prestação de contas continua sendo facultativa na prática, mesmo que obrigatória no papel.
A conclusão lógica é simples a ponto de ser desconfortável: um instituto que arrecada pela força, nomeia seus dirigentes pela política e distribui segundo critérios opacos não pode ser reformado trocando o presidente. Pode ser reformado trocando a lógica. Mas trocar a lógica significaria devolver ao trabalhador o controle sobre o próprio dinheiro, e isso, todos sabemos, é a única reforma que jamais será proposta por quem se beneficia do arranjo atual. Ana Cristina Viana Silveira assume uma cadeira que já esteve quente para muita gente. A cadeira sobrevive a todos. O trabalhador, que paga a conta, assiste à cerimônia sem ter sido convidado para a decisão.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.