O sujeito se levanta, vai ao espelho escovar os dentes e dá de cara com aquilo: uma poça vermelha espalhada no branco do olho, como se alguém tivesse derramado vinho dentro da própria córnea. O coração dispara, a esposa grita, o filho filma para o TikTok, e em quinze minutos o cidadão está dirigindo em pânico rumo ao pronto atendimento mais caro que o convênio aceita. Lá chegando, depois de duas horas de espera, vinte minutos de triagem e uma consulta de seis minutos, vem o veredito do oftalmologista de plantão: hemorragia subconjuntival, vai sumir sozinha em duas semanas, próximo. Conta paga, susto cobrado, lição não aprendida.

O fenômeno é trivial. Um vasinho microscópico, desses que enfeitam a esclera como fios de seda, se rompe por qualquer motivo banal: um espirro mais entusiasmado, uma tossida na madrugada, o esforço hercúleo de quem comeu feijoada na sexta e descobriu o intestino na segunda, uma fungada forte para tirar o cisco. O sangue, sem ter para onde ir, se espalha embaixo da fina membrana transparente que cobre a parte branca do olho e fica ali, exposto, escandaloso, como um grafite vermelho num muro caiado. Dói? Não dói. Atrapalha a visão? Em nada. Precisa de colírio milagroso, pomada importada, antibiótico de amplo espectro? Absolutamente nada. O corpo reabsorve o hematoma como reabsorve qualquer roxo no joelho de criança que caiu da bicicleta.

Por que então o pavor? Porque a ignorância é a matéria prima mais lucrativa do planeta, e a saúde é o mercado que mais habilmente a transforma em faturamento. Ninguém ensinou ao cidadão comum que o olho tem capilares como tem a perna, e que esses capilares estouram pelos mesmos motivos pelos quais aparece um roxo no braço de quem esbarrou na quina da mesa. Em vez disso, ensinaram que qualquer alteração corporal exige consulta, exame, encaminhamento, retorno, e de preferência um especialista de subespecialidade que cobra a hora cheia. A medicina deixou de ser ofício de curar e virou linha de montagem para extrair recursos de quem está com medo de morrer, que somos todos nós, o tempo todo.

Siga o dinheiro e o desenho aparece nítido. Cada susto desnecessário alimenta uma cadeia produtiva inteira: o convênio cobra mensalidade calculada para essas idas inúteis, o hospital fatura a consulta de emergência por um valor que não tem qualquer relação com o tempo gasto, o oftalmologista preenche a agenda com casos que se resolveriam com um copo de água e dois dias de paciência, e o farmacêutico empurra um colírio de quinze reais que não faz absolutamente nada além de molhar uma membrana que já está úmida por desenho biológico. O cidadão sai de lá aliviado, pagando caro pela informação que poderia ter recebido de graça em dois minutos de leitura honesta. Vendeu se a tranquilidade pelo preço do desespero, e o desespero foi cuidadosamente cultivado por décadas de marketing médico travestido de jornalismo de saúde.

Há um padrão antigo nessa engenharia. Toda casta sacerdotal, da Babilônia aos hospitais privados de hoje, prosperou exatamente na medida em que conseguiu monopolizar o conhecimento sobre o corpo, a alma ou o céu. O segredo é o capital, a explicação simples é a falência. Se o cidadão soubesse que noventa por cento das manchas vermelhas no olho desaparecem sozinhas, que febre baixa em criança não é emergência, que dor de garganta de três dias dispensa antibiótico, o templo desabaria. Por isso o templo investe pesado em manter a porta da emergência sempre cheia, a sala de espera sempre apreensiva, e o leigo sempre convencido de que seu corpo é uma máquina ininteligível que só os iniciados conseguem decifrar.

Atenção, claro, ao raro. Se a mancha vem acompanhada de dor real, perda de visão, trauma forte na cabeça, hipertensão descontrolada ou uso de anticoagulante, aí sim se procura um médico, porque aí o capilar rompido pode ser sintoma e não fenômeno. Fora isso, o melhor remédio é o espelho fechado, a vida tocada normalmente, e a desconfiança permanente de qualquer instituição que lucre proporcionalmente ao tamanho do seu medo. O olho vai despintar sozinho. A conta do convênio, essa, não.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.